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O
Eco do Sr. Macedo
O relógio da cozinha, que desde terça-feira marcava impreterivelmente quatro horas e dezessete minutos da tarde, resolveu tossir seco e declarar-se cansado de empurrar o tempo.
Macedo, que apenas tentava passar manteiga em uma fatia de pão de forma perfeitamente quadrada, achou por bem concordar. Deixou a faca de lado e abriu a janela para conferir a iluminação do dia. Do lado de fora, a rua parecia perfeitamente em ordem: o trânsito fluía no ritmo habitual, os transeuntes caminhavam pelas calçadas e o céu exibia um tom impecável de verde-alface, como aliás se esperava de uma terça-feira bem comportada.
— Se o céu está verde, o correio não demora — comentou Macedo para o bule de chá, que respondeu com um chiado polido de concordância.
A campainha tocou exactamente duas vezes. Ao abrir a porta, Macedo encontrou um carteiro de farda impecável, que trazia nos braços uma encomenda volumosa embrulhada em papel pardo e amarrada com barbante.
— Senhor Macedo? — perguntou o entregador, tirando o quepe em sinal de respeito. — O próprio. — Tenho aqui o seu eco. Chegou do interior. O senhor poderia assinar a folha de papel em branco?
Macedo assinou o espaço vazio com a ponta do polegar. Agradeceu a pontualidade da entrega e levou o pacote até a mesa de jantar. Desfez o nó do barbante com cuidado para não estragar o papel. Dentro da caixa, perfeitamente acomodado entre flocos de isopor, não havia nada.
Ele aproximou a orelha da borda do papelão e sussurrou: — Alô?
Três segundos depois, do fundo da caixa vazia, veio a resposta perfeita, na mesma tonalidade e com a dicção cristalina: — Alô?
Satisfeito com a aquisição, Macedo guardou o eco na prateleira mais alta da estante, logo ao lado da colecção de botões de casaco que nunca haviam pertencido a ninguém. Sentou-se novamente, deu mais uma mordida no pão de forma e concluiu que, afinal de contas, poucas coisas na vida eram tão reconfortantes quanto uma rotina sem imprevistos.
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