O Pormenor do
Meio-Gordo
O plano de Artur era, de facto, uma obra-prima de engenharia criminosa. Durante seis meses, ele estudou a rotina da ourivesaria Gomes & Filhos. Sabia a que horas o carro de valores recolhia o apurado, o tempo exacto de reação da esquadra local (sete minutos, se o trânsito ajudasse) e o ângulo morto da única câmara de segurança da rua traseira.
Naquela terça-feira chuvosa, tudo correu como o velhinho relógio que Artur trazia no pulso. Entrou de gabardina escura, luvas cirúrgicas e máscara. Não houve gritos, não houve sangue. Em menos de 120 segundos, tinha duas malas de cabedal cheias de relógios de alta gama e pedras preciosas. Saiu pelas traseiras, entrou no seu utilitário cinzento — o carro mais banal e invisível da cidade — e conduziu calmamente, cumprindo todos os limites de velocidade.
Às 20h30, Artur estava no seu esconderijo: um rés-do-chão num bairro pacato nos arredores. O crime perfeito estava consumado. Nenhuma pista, nenhuma impressão digital, nenhum rosto gravado. O azar dos donos da ourivesaria; a sorte dele.
Satisfeito, Artur percebeu que a adrenalina lhe tinha aberto o apetite. Abriu o frigorífico e viu que só tinha restos de pizza. Decidiu fazer um café com leite para acompanhar, mas o pacote de leite estava vazio. Com os milhões trancados no roupeiro, retirado que tinha sido apenas um elegante relógio suíço que prontamente meteu no pulso em substituição do seu velhinho relógio, o homem que tinha acabado de fintar a polícia sentiu a urgência de um capricho simples: um copo de leite quente com café , antes de dormir.
Vestiu um casaco limpo, enfiou uma nota de cinco euros no bolso e caminhou duzentos metros até à mercearia de conveniência da esquina, aberta 24 horas.
Entrou, dirigiu-se à arca frigorífica, agarrou num pacote de leite meio-gordo e avançou para o balcão. O funcionário, um jovem sonolento com auscultadores no pescoço, registou o produto:
— Um euro e vinte, por favor.
Artur meteu a mão ao bolso, puxou a nota e entregou-a. Foi nesse milésimo de segundo que o acaso se vestiu de farda.
A porta da loja abriu-se com o soar de uma sineta. O Inspector Alfama, da Brigada de Investigação Criminal, entrou a sacudir a água da chuva do casaco. Alfama não estava ali para caçar o assaltante da ourivesaria; estava a meio de um turno de doze horas, de rastreio a um caso de contrafacção do outro lado da cidade, e só queria um maço de tabaco e pastilhas elásticas.
Artur, com os nervos ainda à flor da pele pelo golpe da tarde, congelou ao ver o distintivo no cinto do homem que entrava. O seu coração falhou uma batida. Tentassem manter a calma, mas o corpo trai. Ao receber o troco do funcionário da mercearia, as mãos de Artur — as mesmas mãos firmes que tinham esvaziado as vitrines da ourivesaria sem tremer — vacilaram. As moedas caíram no balcão e uma delas rolou para o chão, batendo bota do Inspector Alfama.
Alfama, por puro reflexo de cortesia, baixou-se para apanhar a moeda de cinquenta cêntimos. Quando se levantou para a entregar, olhou nos olhos de Artur. Viu a pupila dilatada, o suor frio na testa apesar do frio lá fora, e o mais importante: um minúsculo reflexo dourado no punho do casaco de Artur.
Preso no tecido do casaco, quase invisível, estava um minúsculo fio de nylon com uma etiqueta de preço vermelha, daquelas usadas para marcar joias. O tipo de etiqueta que a Gomes & Filhos usava exclusivamente na sua coleção de luxo. Alfama tinha estado no local do crime duas horas antes a recolher os primeiros depoimentos. Lembrava-se da cor das etiquetas porque uma delas tinha ficado caída no balcão da ourivesaria.
O olhar de Alfama desceu para o relógio de Artur. Um cronógrafo suíço de edição limitada, cujo número de série verificou depois, coincidir com a lista que o proprietário roubado acabara de ditar à polícia. Artur tinha-se esquecido que tirara o seu próprio relógio e o substituíra anteriormente por aquele relógio de luxo, um dos mesmo que tinha sido fruto do assalto .
— Bonito relógio — disse Alfama, com a voz calma de quem acabou de decifrar um enigma. — E o leite meio-gordo faz muito bem aos ossos. Mas acho que vamos ter de fazer uma paragem antes de ir para casa.
Artur não reagiu. Olhou para o pacote de leite na sua mão e percebeu, finalmente, a grande lição do crime: podemos planear tudo contra os homens, mas não há plano que sobreviva ao acaso.