( aqui no blogue ... ocasionalmente )
NA HORA DA REFORMA
O silêncio da madrugada na
grande cidade foi abruptamente quebrado pelo choro estridente das sirenes.
Dentro da viatura 402, o ambiente era de pura tensão. O Sargento Silva mantinha
os olhos fixos na estrada húmida, enquanto o Agente Santos, no banco do passageiro,
verificava pela terceira vez o carregador da sua arma.
O rádio da polícia estalava
com direcções frenéticas da central:
"Suspeito em fuga a
pé na zona industrial. Considerado armado e altamente perigoso. Todas as
unidades fechem o perímetro."
Silva travou a fundo,
fazendo os pneus guincharem num beco escuro, ladeado por armazéns abandonados.
Foram os primeiros a chegar. Saíram da viatura num movimento sincronizado, com
as lanternas tácticas a rasgar a penumbra e as armas em punho. Cada sombra parecia
uma ameaça; cada som de metal a ranger ao vento acelerava-lhes o batimento
cardíaco.
"Santos, flanqueia
pela esquerda. Eu vou pelo corredor central", sussurrou Silva, com a voz
grave e focada. Santos assentiu, movendo-se como uma sombra.
A adrenalina estava ao
rubro. Anos de treino resumiam-se àquele momento. O perigo era real, o medo era
um combustível controlado. Passos apressados ecoaram mais à frente. Silva
congelou. Viu um vulto correr para os fundos de um armazém sem saída.
"Polícia! Pare
já!", gritou Silva, avançando com passos firmes, o cano da arma a apontar
para o perigo.
Santos surgiu pelo outro
lado, bloqueando a única rota de fuga. O suspeito estava encurralado contra um
portão de ferro. Estava de costas, a arfar violentamente, vestindo um casaco
escuro com capuz.
"Mãos onde eu as possa
ver! Lentamente!", ordenou Santos, com o dedo colado ao gatilho.
O suspeito começou a virar-se, muito devagar. Silva sentiu o suor frio escorrer-lhe pela testa. O mundo pareceu mover-se em câmara lenta. A figura misteriosa levou as mãos ao capuz e puxou-o para trás.
À luz das lanternas, os
dois polícias fixaram o rosto do fugitivo. Não era um assaltante de bancos, nem
um cadastrado perigoso. Era o Director-Geral da Polícia Nacional.
Antes que Silva ou Santos conseguissem
processar o choque, o Director olhou para o relógio de pulso, sorriu de forma
paternal e carregou num pequeno comando que trazia no bolso. De imediato, as
luzes do armazém acenderam-se, revelando dezenas de outros polícias escondidos,
balões e uma enorme faixa que dizia: “Feliz Reforma, Sargento Silva!”.
O Director caminhou até
Silva, que ainda segurava a arma, perplexo, e deu-lhe um abraço.
"Submeteste o teu pedido de reforma ontem, Silva. Achaste mesmo que te
íamos deixar ir embora sem um último teste de esforço? Parabéns pelos 30 anos
de serviço."