DE REGRESSO AO PASSADO
( aqui no blogue todas as 3ª.s feiras )
designação da SECÇÃO POLICIÁRIA :
É sempre bom saber ... para os indecisos !
Criar um mistério policial verdadeiramente envolvente exige controlar cuidadosamente a informação que entrega ao leitor, mantendo a história justa, mas surpreendente.
A Regra do Jogo Limpo : O leitor deve ter acesso às mesmas
pistas que o detective. A surpresa final deve fazer o leitor pensar: "Como é que não vi isto
antes?" e nunca "Isso
é impossível, a história inventou factos no fim".
O Truque da Dupla Camada : Escreva a história do crime ao
contrário antes de começar a narrativa.
·
A
História Real: O
que realmente aconteceu, passo a passo (quem, como, quando e porquê).
·
A
História da Investigação:
A ordem em que o detective descobre as pistas. O enigma surge da diferença
entre a ordem real dos factos e a ordem em que são revelados.
Técnicas para Esconder Pistas
·
Esconder
à vista de todos : Apresente
uma pista crucial acompanhada por duas ou três informações banais. Se o detective
encontra uma chave, uma nota de restaurante e um maço de tabaco, o leitor
focar-se-á no maço de tabaco e ignorará a nota.
·
Mudança
de Significado :
Mostre um objecto ou comportamento que parece servir para uma coisa, mas depois
revela-se ter outro propósito (ex.: um relógio partido não parou na hora da
morte, foi adiantado de propósito para criar um álibi).
·
A Pista
Falsa : Crie
suspeitos com segredos reais, mas irrelevantes para o assassinato. Um suspeito
pode agir de forma extremamente culpada não porque matou a vítima, mas porque
estava a roubar a empresa ou a ter um caso amoroso.
A Arte dos Suspeitos
·
Dê
a pelo menos três personagens um motivo forte, uma oportunidade e um segredo.
·
Faça
com que o verdadeiro culpado pareça útil ou inofensivo na maior parte do tempo,
evitando o cliché do "mordomo" ou do vilão caricatural.
A partir daqui , embarque nesta aventura e faça o seu próprio Problema Policial … !
( aqui no blogue ... ocasionalmente )
O Alfaiate de Sombras
A cela número 14 tinha exactamente três passos de
largura por quatro de comprimento. Para Samuel, um professor de literatura
condenado por ousar pensar diferente do regime, aquele espaço deveria ser o seu
túmulo psicológico. Os guardas sabiam que o isolamento quebrava um homem mais
rápido do que a fome.
Nos primeiros meses, o silêncio e a humidade quase o
engoliram. Mas Samuel tomou uma decisão: eles podiam trancar o seu corpo, mas não tinham a chave da sua mente.
Todas as manhãs, após o som estridente da sirene que anunciava o amanhecer, Samuel iniciava a sua rotina de sobrevivência.
Às 8:00: Ele caminhava os três passos de um lado para o outro, durante uma hora,
imaginando que estava a passear pelas ruas de Lisboa, cumprimentando vizinhos
invisíveis.
Às 10:00: Ele sentava-se no chão de cimento e, usando um pequeno pedaço de carvão
que encontrara no pátio, escrevia poemas e equações na sola dos seus sapatos.
Quando a sola ficava preta, ele apagava tudo com a saliva e o próprio dedo,
pronto para recomeçar no dia seguinte.
Às 14:00: Era a hora da "pesca".
A cela tinha uma única e minúscula fresta de luz no alto da parede de pedra. Durante trinta minutos por dia, um raio de sol cruzava o ambiente. Samuel posicionava-se exactamente onde o raio tocava o chão. Ele fechava os olhos e sentia o calor na pele. Naqueles trinta minutos, ele não era um prisioneiro; ele estava numa praia, ou num parque, ou abraçando a sua filha.
Os guardas observavam-no pelo “olho-mágico”. Esperavam
ver um homem a chorar, a implorar ou a falar sozinho com desespero. Em vez
disso, viam Samuel com uma postura erecta, os olhos calmos e um leve sorriso no
rosto. Isso os enfurecia.
Um dia, o chefe da guarda, um homem brutal chamado inspector Santos, entrou na cela.
Samuel olhou para o guarda. Não havia ódio nos seus
olhos, apenas uma quietude profunda.
— O senhor pode controlar as paredes que me cercam,
inspector — disse Samuel, com a voz serena. — Pode controlar a comida que me dá
e as roupas que visto. Mas a minha mente? Essa continua a ser minha. Hoje de
manhã, eu li três livros, visitei a minha mãe e caminhei à beira-mar. O senhor
tem a chave da cela, mas eu tenho a chave do meu mundo.
Santos recuou um passo, confuso e secretamente
assustado com aquela força que não vinha dos músculos, mas do espírito. Saiu
batendo a porta de ferro.
Os anos passaram. O regime político acabou por cair, e as portas da prisão foram abertas.
Quando Samuel saiu para a luz do dia, os seus cabelos
estavam brancos e as suas mãos calejadas, mas os seus olhos brilhavam com a
mesma vivacidade do dia em que entrara. Os outros prisioneiros saíram
quebrados, mas Samuel saiu inteiro. Ele não tinha apenas sobrevivido ao
cativeiro; ele tinha-o vencido dia após dia, provando que a resiliência é a
recusa absoluta de entregar a nossa dignidade e a nossa liberdade interior a
quem quer que seja.
Aproxima-se,
inclina-se discretamente e sussurra-lhe ao ouvido:
— Não se mexa, já anotei
tudo... Sei perfeitamente o que está aqui a fazer.
O homem
olha para ele, admirado, e pergunta:
— A sério ? E o que é ?
E o
detective responde, confiante:
— Está à espera que os ponteiros avancem ! Nada
me escapa.
A Notícia Será Verdadeira ... ?
O que haverá de falso nesta história ?
Poderá dar a sua opinião aqui nos comentários .