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O Alfaiate de Sombras
A cela número 14 tinha exactamente três passos de
largura por quatro de comprimento. Para Samuel, um professor de literatura
condenado por ousar pensar diferente do regime, aquele espaço deveria ser o seu
túmulo psicológico. Os guardas sabiam que o isolamento quebrava um homem mais
rápido do que a fome.
Nos primeiros meses, o silêncio e a humidade quase o
engoliram. Mas Samuel tomou uma decisão: eles podiam trancar o seu corpo, mas não tinham a chave da sua mente.
Todas as manhãs, após o som estridente da sirene que
anunciava o amanhecer, Samuel iniciava a sua rotina de sobrevivência.
Às 8:00: Ele caminhava os três passos de um lado para o outro, durante uma hora,
imaginando que estava a passear pelas ruas de Lisboa, cumprimentando vizinhos
invisíveis.
Às 10:00: Ele sentava-se no chão de cimento e, usando um pequeno pedaço de carvão
que encontrara no pátio, escrevia poemas e equações na sola dos seus sapatos.
Quando a sola ficava preta, ele apagava tudo com a saliva e o próprio dedo,
pronto para recomeçar no dia seguinte.
Às 14:00: Era a hora da "pesca".
A cela tinha uma única e minúscula fresta de luz no
alto da parede de pedra. Durante trinta minutos por dia, um raio de sol cruzava
o ambiente. Samuel posicionava-se exactamente onde o raio tocava o chão. Ele
fechava os olhos e sentia o calor na pele. Naqueles trinta minutos, ele não era
um prisioneiro; ele estava numa praia, ou num parque, ou abraçando a sua filha.
Os guardas observavam-no pelo “olho-mágico”. Esperavam
ver um homem a chorar, a implorar ou a falar sozinho com desespero. Em vez
disso, viam Samuel com uma postura erecta, os olhos calmos e um leve sorriso no
rosto. Isso os enfurecia.
Um dia, o chefe da guarda, um homem brutal chamado
inspector Santos, entrou na cela.
— Do que é que te estás a rir, 14 ? — rosnou Santos,
batendo com o bastão de ferro na parede. — Achas que isto é um hotel? Tu vais
morrer aqui dentro. Ninguém se lembra de ti lá fora.
Samuel olhou para o guarda. Não havia ódio nos seus
olhos, apenas uma quietude profunda.
— O senhor pode controlar as paredes que me cercam,
inspector — disse Samuel, com a voz serena. — Pode controlar a comida que me dá
e as roupas que visto. Mas a minha mente? Essa continua a ser minha. Hoje de
manhã, eu li três livros, visitei a minha mãe e caminhei à beira-mar. O senhor
tem a chave da cela, mas eu tenho a chave do meu mundo.
Santos recuou um passo, confuso e secretamente
assustado com aquela força que não vinha dos músculos, mas do espírito. Saiu
batendo a porta de ferro.
Os anos passaram. O regime político acabou por cair, e
as portas da prisão foram abertas.
Quando Samuel saiu para a luz do dia, os seus cabelos
estavam brancos e as suas mãos calejadas, mas os seus olhos brilhavam com a
mesma vivacidade do dia em que entrara. Os outros prisioneiros saíram
quebrados, mas Samuel saiu inteiro. Ele não tinha apenas sobrevivido ao
cativeiro; ele tinha-o vencido dia após dia, provando que a resiliência é a
recusa absoluta de entregar a nossa dignidade e a nossa liberdade interior a
quem quer que seja.