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A VINGANÇA
O Inspector Alfama deslizou a luva de pelica sobre a borda da escrivaninha, observando o Barão. O homem jazia imóvel, uma mancha carmesim se expandindo pelo tapete persa. A porta estava trancada por dentro, as janelas lacradas pelo frio do inverno. Um "crime de quarto fechado" clássico, digno dos tablóides de Londres.
— Alguma pista, senhor? —
perguntou o jovem sargento, a voz trémula ao entrar no recinto.
Alfama não se virou. Ele
apenas apontou para uma pequena fresta na moldura da janela, um detalhe quase
invisível.
— Veja ali, rapaz. O
assassino usou um fio de nylon para puxar o trinco por fora. Um amador tentando
ser esperto. Já vi esse truque uma dúzia de vezes.
O sargento anotou tudo,
maravilhado com a sagacidade do mentor. Alfama deu instruções detalhadas sobre
como rastrear o suposto invasor pelos jardins lamacentos. Assim que os passos
do subordinado ecoaram longe no corredor, o Inspector relaxou os ombros.
O imprevisto não era o
Inspector ser o assassino — isso ele já sabia há meses, desde que planeara a
vingança. O imprevisto veio quando Alfama notou, no reflexo do espelho da
estante, o cano de uma arma encostado à sua própria nuca.
— Belo monólogo, Inspector —
sussurrou o sargento, que nunca havia saído do quarto. — Mas o seguro de vida
do Barão só paga se o assassino for preso... ou morto em "legítima
defesa" por um herói da polícia como eu.
O Inspector sorriu,
sentindo o frio do metal. Ele tinha ensinado o rapaz bem demais.

