Destaque deste mês para a Solução ao Problema Curto - 10
MORTE NA TEMPESTADE
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Aquela noite, de um Outubro terrível em
intempéries, apresentava-se, no entanto, seca, quente, sem chuva… quase
parecendo uma noite de verão, depois de na véspera uma forte e horrenda
tempestade ter assolado a localidade com chuvadas, relâmpagos e trovões que
derrubaram algumas árvores, no campo e na localidade do Montijo, uma jovem cidade
que mereceu esta distinção, num Agosto quente, quando o Inspector Alfama ainda
não tinha completado os seus 20 anos e frequentava a Universidade, com alguns
destes seus inestimáveis amigos.
O carismático Inspector recordava, em
algumas ocasiões, o dia em que a freguesia do Montijo foi distinguida como
cidade, porque foi um dia quente em Portugal. Os dias de maior calor, desse mês
de Agosto, nesse verão, foram históricos e sucederam nos primeiros dias, mas
nos meados do mês, concretamente a 14 de Agosto, continuaram sob a influência
de um verão seco com as temperaturas demasiado elevadas para a época em quase
todo o território nacional. Estávamos em 1985.
- Pois, se o tempo
estivesse igual a ontem… de certeza que não vinha… depois da chuvada que
apanhei na mansão do Artur Robalo, um vosso conhecido empresário!
- Sim… é verdade… corre
o boato que foi assassinado no seu escritório, ontem, à noite… com aquela
tempestade… a notícia até já deu na TV! Sabes concretamente quem o assassinou,
segundo consta… com um tiro no peito?
- Ora… fui requisitado
para ir ao local do crime… estava de serviço… e quando pensava passar uma noite
sossegada… lá recebi um telefonema para ir até à mansão do Robalo… tomar conta
do assunto!
- Então e como foi…? Conta-nos
lá! – proferiu um amigo, já curioso.
- Olhem, o Artur foi
assassinado com um tiro no peito, no seu escritório, enquanto a tempestade
acontecia, precisamente às 21 horas e 15 minutos, pela conclusão do Filipe, o
vosso conhecido Médico legista e meu amigo! 15 minutos antes, da hora em que o
crime ocorreu, aconteceu um apagão, como vocês sabem, que durou até às 21e 45
horas. Nesse espaço de tempo, alguém, lá de casa, disparou sobre o Artur Robalo
e o corpo foi encontrado pelas 22 horas.
- Bolas! Descobriste o
assassino… ou teria sido alguém de fora!?
- És doido, Miguel!
Com um temporal daqueles quem é que iria matar o homem… a partir do exterior!?
Até porque ele daria pela presença do intruso e por certo… tentaria
defender-se! Não. Quem matou foi alguém que estava dentro da mansão… até porque
não havia vestígios de presença alheia, tais como chão molhado, desarrumações,
etc.
- E a cápsula do
disparo, estava no chão!? – perguntou o Pedro, curioso.
- Bem, vocês estão a
ficar peritos na matéria… têm assimilado bem, os casos que lhes tenho narrado!
– proferiu o Inspector Alfama e continuou.
- Por acaso não havia
nenhum invólucro no chão pelo que deduzi que teria sido utilizado um revólver
que, como sabem, não o ejecta após o disparo… ou, o assassino teria apanhado a
cápsula, do chão, em caso de pistola utilizada!
- Então… e descobriste
quem foi o assassino!? – interrogou um outro amigo.
- Claro! Já está preso
para ser levado a tribunal porque o seu depoimento foi tão contraditório e
inverosímil com os factos e situações que depressa o, ou a…, incriminei e
chamei o piquete que estava de serviço para a pessoa certa… ser detida! Mas…
não lhes vou dizer, de bandeja, qual o culpado, no grupo das cinco pessoas que
interroguei que pode ser homem ou mulher… vou-lhes mencionar os pormenores e
sejam vocês a resolver e a descortinar quem mentiu nas declarações, tratando-se
de o assassino ou a assassina!
- Claro… vamos a isso!
Sebastião traz um whisky, aqui, para o Alfama.
Todos os presentes engoliram mais um
pouco da bebida que tinham nos copos e acomodaram-se, atenciosos, ouvindo as
descrições do Inspector:
- Ora, já sabem que o
assassínio ocorreu às 21h15m, o corpo foi encontrado às 22h e que um apagão
surgiu entre as 21h e 21h45m. O Rodrigo, motorista da vítima declarou-me que
enquanto durou a falta de luz esteve dentro do carro, na garagem, a ouvir
rádio, mas, mesmo assim, observou uma luz de uma lanterna, às 21h e 10m no
jardim.
- Então se o tipo estava
na garagem como é que viu a luz da lanterna no jardim!? Com aquele temporal a
porta da garagem devia estar fechada! Foi ele o assassino? – inquiriu um dos
presentes.
- Calma, Miguel –
tranquilizou o Inspector – o depoimento pareceu-me verídico e até podia ter a
porta da garagem aberta! Além de mais… pode-se ouvir rádio, no carro, apesar das
tempestades!
- Hum… mais uma
afastada de culpabilidade, parece-me! – disse o José.
- Sérgio, o mordomo da
mansão…
- Ui, esses costumam
ser, quase sempre, os assassinos! – interrompeu o Joel, todo entusiasmado por
ouvir o depoimento do mordomo.
- Isso acontece nas
histórias policiais, meu caro, na vida real não é bem assim – esclareceu o
Inspector e continuou – no entanto oiçam o que tenho para vos dizer…
- Ele justificou-se
que após o apagão se dirigiu à casa das máquinas, no subsolo, na área do
jardim, para tentar ligar o gerador, mas que não conseguiu. Levou consigo uma
lanterna.
- Cá está… foi a luz
da lanterna do mordomo que o Rodrigo, o motorista, lobrigou quando estava na
garagem, recolhido. – deduziu o Pedro.
- “Lobrigou”!? Que
palavra é essa, perguntou o José.
- “Lobrigou”… quer
dizer “vislumbrou”… viu com dificuldades! – respondeu o Pedro, a sorrir e
contente com a observação.
- Bolas! Estás um
erudito! Deve ser das “aulas” dos casos do Alfama. – exclamou, concordante, o
José.
- Pronto… já são três suspeitos
e estão, todos, ilibados! Ainda havia mais gente na mansão!? – perguntou o
Joel.
- Há mais dois
suspeitos e um deles foi quem cometeu o assassínio, deixem-me contar-lhes.
Disse, calmamente, o Inspector Alfama
enquanto levou, de novo, o copo à boca, depois de rodopiar o mesmo movendo as
pedras do gelo.
- Beatriz é, ou era, a
contabilista do Artur Robalo e afirmou que sempre esteve na biblioteca – no
mesmo piso do escritório onde o empresário se reuniu com a sócia Laura – enquanto
decorreu o apagão. Lembra-se de ouvir passos apressados a subir a escadaria,
pelas 21h e 20m e julgou tratar-se da Laura.
- Eh, lá! Nesta altura
já o crime tinha sido cometido! Então porque é que não ouviu o som do disparo
que foi às 21h e 15m!? Aliás, a Laura acabou a reunião com o sócio pelas
20h50m! – comentou o Joaquim que até àquele momento tinha estado calado
absorvido nas descrições do Alfama. E quem lhe respondeu, de chofre, foi o
Joel, perante o silêncio do Inspector:
- Calma, calma… o tiro
podia ter sido dado com pistola munida de silenciador e com o barulho da
trovoada também seria impossível de ouvir! E se a Beatriz estava na biblioteca
não tinha bem a noção de quando a reunião tinha terminado e ao ouvir os passos
apressados – talvez num intervalo dos trovões – julgou tratar-se da Laura, a
subir em direcção à sala no 1.º andar. Penso que fala verdade e sendo assim…
vamos ao último suspeito que, pelos vistos, deve ser o assassino, por isso
mesmo o nosso querido Alfama o deixou para o fim!
- O último interveniente,
do crime de ontem, trata-se do irmão da vítima, o Vicente que me contou ter
estado a noite inteira no seu quarto, enquanto decorria a tempestade e
aconteceu o apagão. Precisamente, à hora do crime, indicada pelo Filipe, 21h e
15m, lembrava-se com toda a certeza, estava à janela, porque viu, com a ajuda e
através de um relâmpago, o relógio de Sol, que está colocado no jardim, a
mostrar e a indicar essa mesma hora: 21h15m. Não tinha dúvidas! E foi nessa
mesma hora, a hora exacta do crime, que ouviu um estampido seco vindo do andar
de baixo. Disse-me que não ligou importância porque havia trovoada no ar.
O Inspector Alfama terminou, assim, a
sua narrativa e calou-se. Observou todos os seus amigos de olhos bem abertos,
de copo na mão, a olharem uns para os outros… não compreendendo se estavam
surpreendidos, indecisos, intrigados ou estupefactos! O momento durou breves
segundos que pareceram horas e, de repente, em uníssono, todos bateram com os
copos, uns nos outros, ingeriram os líquidos de uma só vez, abriram as bocas e
começaram a rir, às gargalhadas, situação que levou alguns dos outros
frequentadores do bar a olhar para eles, pasmados!
Riram, riram, riram, sem parar, até que
o Pedro foi quem tomou a palavra:
- Oh, meu grande amigo
Alfama, então esta história é para os “apanhados”… e os “apanhados”
somos nós (!)… aconteceu mesmo assim (!?)… ou, hoje, queres-te divertir
connosco…!?
- Foi mesmo assim, que
tudo aconteceu, caríssimos amigos! Esta é a verdade! Então digam-me, lá, de
entre os suspeitos, interrogados por mim, quem mentiu e consequentemente foi detido
para ser indicado como culpado do assassinato do empresário Artur Robalo,
mediante a minha narração… - sugeriu o Inspector Alfama, enquanto o Joel se
voluntariou para falar:
- Estimado amigo, este
caso foi muito fácil de resolver… porque um relógio de Sol é um instrumento
ancestral que mede a passagem do tempo através da posição do Sol no Céu. O
relógio é possuidor de um pino ou uma haste que fica presa no centro e projecta
uma sombra consoante a incidência dos raios solares. A sua superfície contém
linhas numeradas que indicam as horas. Com a rotação da Terra, o Sol parece
mover-se no Céu e a sombra da haste ou pino central desloca-se sobre o
mostrador que vai indicando as horas! O mostrador, com a configuração redonda
de um relógio assenta-se numa superfície, no chão, ou em mesas de um qualquer
jardim, como parece ser o caso da mansão do empresário Artur Robalo.
- Grande crânio, este
Joel! – comentou o José, quase a gozar.
A
noite terminou com sorrisos e abraços e mais umas bebidas ingeridas enquanto o
Inspector Alfama produzia as últimas palavras da noite:
- Se vocês não fossem
tão velhos, como eu, à beira da reforma… ainda podiam fazer uma “perninha”
na Polícia Judiciária!
Ouviram-se mais umas gargalhadas e o brindar
de copos no ar.