( aqui no blogue ... ocasionalmente )
O ÚLTIMO ENSAIO
O silêncio no teatro era absoluto, interrompido apenas
pelo som rítmico dos sapatos de Armando Contreiras contra a madeira do palco.
Ele repassava as falas em voz baixa, gesticulando para as poltronas vazias. Era
o papel de sua vida: um detective à beira da loucura, tentando provar que o
mundo ao seu redor era uma farsa.
— "Vocês não passam de sombras!" — gritou
ele, a voz embargada pela emoção técnica. — "Eu sei que há algo além
destas paredes. Eu sinto o olhar de mil olhos que não vejo!"
Ele parou, ofegante. O suor escorria-lhe pelo rosto
sob a luz forte do reflector central. Era a performance perfeita. Ele esperava
que o director, escondido em algum lugar da penumbra da plateia, finalmente
dissesse algo.
— Como fui, director ? — perguntou Amando Contreiras,
protegendo os olhos da luz com a mão.
De repente, o tecto do teatro se abriu como uma tampa
de metal gigante, revelando não o céu nocturno, mas o rosto colossal de uma
criança curiosa. Uma mão imensa desceu das nuvens, segurando um frasco de
tinta.
— Ficou óptimo, Armando — disse uma voz
trovejante que fez o chão vibrar. — Mas agora chega de drama. Vamos guardar
a caixa de brinquedos, o jantar está pronto.
Armando tentou correr, mas seus pés, subitamente
rígidos, estavam colados à base de plástico verde. Ele olhou para as próprias
mãos e viu, pela primeira vez, a linha de costura que dividia seu pulso de
polímero.
A luz do sol real entrou, e o mundo de Armando Contreiras foi fechado em uma caixa de papelão escura.

