( aqui no blogue mensalmente ás 4ª. feiras )
Uma história de vida
Aos 17 anos, a maioria dos jovens ainda tenta decifrar
o futuro na margem segura do dia a dia. Para mim, porém, o futuro trajava em
tons de azul e tinha o som compassado da marcha militar. Com a autorização de
meus pais e o peito cheio de uma coragem quase ingénua, ingressei na Força
Aérea Portuguesa em 1970 , como voluntário, com um contrato na mão por 6 anos .
O fardamento azul assentava-me com o rigor das obrigações assumidas , mas no meu pensamento
sobrava o espaço de quem queria conhecer o mundo.
A primeira grande viragem no meu destino , como
militar, levou-me ao coração do Atlântico. Colocado nos Açores, depois da
recruta, desembarquei nas Lages, num arquipélago onde as nuvens pareciam roçar os picos
vulcânicos e a maresia entranhava-se na pele. Foi aí, na serenidade imponente
da Ilha Terceira, que assumi uma das missões mais nobres de qualquer especialista
da FAP : tirar o Curso de Enfermagem.
Entre aulas práticas intensas, horas incalculáveis de
estágios a solo e o aprendizado prático sobre salvar vidas, a vida no Hospital Militar
, na Terra Chã, que recebia grande parte dos evacuados do Ultramar, em muito mau estado diga-se, era um
misto de disciplina e companheirismo. Aprendia a tratar feridas e a acalmar
espíritos, sem saber que aquela arte de cuidar seria a minha maior armadura
para o que se avizinhava.
Com o curso acabado após um intenso ano e as divisas
com as cruzes no ombro, o destino voltou imediatamente a chamar-me — desta vez,
do outro lado do oceano. Angola esperava-me.
A chegada ao Leste de Angola foi um choque de sentidos
: o calor húmido, a terra vermelha que cobria as botas e a vastidão de uma
paisagem sem fim. Colocado como Enfermeiro Especialista em Evacuações, em pleno
Ultramar, rapidamente percebi que as aventuras e os perigos andavam de mãos
dadas.
Com o registo do surto de cólera, houve dias de missões humanitárias em picadas
poeirentas, a prestar cuidados tanto a companheiros de armas como a populações
locais. Vivi episódios rocambolescos: desde transportes de emergência médica em
aviões de carga , em Helis ou DO´s, sob tempestades tropicais, a encontros
imprevistos com a fauna selvagem no meio do mato e noites de guarda sob um céu
pontilhado por milhões de estrelas, onde o som dos trovões e da faina nocturna
embalava os pensamentos de quem estava longe de casa.
Mas o momento mais marcante de todos viria na Primavera
de 1974.
No dia 25 de Abril, o ar em Angola carregou-se de uma
incerteza electrizante. A notícia de um golpe militar em Lisboa chegou pelos
rádios de transístor, entre ruídos de sintonização e vozes sussurradas.
Enquanto em Portugal se distribuíam cravos e se cantava a liberdade , nas ruas de
Henrique de Carvalho, onde me encontrava na altura no AB4, em Angola , o clima era de expectativa suspensa e muitos medos
, onde espreitavam já todos os perigos , com a revolta a sair rapidamente à rua .
Começando por mim e para toda a equipa de enfermagem ,
o trabalho não parou por ali. Muito pelo contrário: intensificou-se a prontidão, os
cuidados com a vida em risco e perigos constantes a solicitarem o nosso apoio
num período de transição histórica mas sangrenta. Será difícil a quem não
esteve no Leste pós 25 de Abril 74, fazer uma pequena ideia que seja do que se
passou nessa altura . Passar o 25 de Abril em terras angolanas , onde estive entre
Abril de 1972 e Novembro de 1974, precisamente 32 meses, significou viver a
História ao vivo, com a sensibilidade de quem não entendia ainda que o mundo à
sua volta estava prestes a mudar para sempre.
Agora e, quando olho para trás, ainda recordo o miúdo
de 17 anos que cruzou os portões do aquartelamento da BA2 , na Ota . De Enfermeiro
na ilha Terceira nos Açores a operacional no coração de África, aquela não foi
apenas uma prestação de serviço — foi a história de uma vida moldada pelo
dever, pela camaradagem e pela aventura inesquecível de quem esteve lá , e ainda
serviu a Força Aérea Portuguesa por longos 5 anos , libertado por 1 ano ( eram
6 o contrato ) , pela disponibilidade compulsiva , motivado pela redução dos
efectivos das Forças Armadas .

























