sábado, 11 de julho de 2026


( aqui no blogue ... ocasionalmente )

O Pormenor do Meio-Gordo

O plano de Artur era, de facto, uma obra-prima de engenharia criminosa. Durante seis meses, ele estudou a rotina da ourivesaria Gomes & Filhos. Sabia a que horas o carro de valores recolhia o apurado, o tempo exacto de reação da esquadra local (sete minutos, se o trânsito ajudasse) e o ângulo morto da única câmara de segurança da rua traseira.

Naquela terça-feira chuvosa, tudo correu como o velhinho relógio que Artur trazia no pulso. Entrou de gabardina escura, luvas cirúrgicas e máscara. Não houve gritos, não houve sangue. Em menos de 120 segundos, tinha duas malas de cabedal cheias de relógios de alta gama e pedras preciosas. Saiu pelas traseiras, entrou no seu utilitário cinzento — o carro mais banal e invisível da cidade — e conduziu calmamente, cumprindo todos os limites de velocidade.

Às 20h30, Artur estava no seu esconderijo: um rés-do-chão num bairro pacato nos arredores. O crime perfeito estava consumado. Nenhuma pista, nenhuma impressão digital, nenhum rosto gravado. O azar dos donos da ourivesaria; a sorte dele.

Satisfeito, Artur percebeu que a adrenalina lhe tinha aberto o apetite. Abriu o frigorífico e viu que só tinha restos de pizza. Decidiu fazer um café com leite para acompanhar, mas o pacote de leite estava vazio. Com os milhões trancados no roupeiro, retirado que tinha sido apenas um elegante relógio suíço que prontamente meteu no pulso em substituição do seu velhinho relógio, o homem que tinha acabado de fintar a polícia sentiu a urgência de um capricho simples: um copo de leite quente com café , antes de dormir.

Vestiu um casaco limpo, enfiou uma nota de cinco euros no bolso e caminhou duzentos metros até à mercearia de conveniência da esquina, aberta 24 horas.

Entrou, dirigiu-se à arca frigorífica, agarrou num pacote de leite meio-gordo e avançou para o balcão. O funcionário, um jovem sonolento com auscultadores no pescoço, registou o produto:

— Um euro e vinte, por favor.

Artur meteu a mão ao bolso, puxou a nota e entregou-a. Foi nesse milésimo de segundo que o acaso se vestiu de farda.

A porta da loja abriu-se com o soar de uma sineta. O Inspector Alfama, da Brigada de Investigação Criminal, entrou a sacudir a água da chuva do casaco. Alfama não estava ali para caçar o assaltante da ourivesaria; estava a meio de um turno de doze horas, de rastreio a um caso de contrafacção do outro lado da cidade, e só queria um maço de tabaco e pastilhas elásticas.

Artur, com os nervos ainda à flor da pele pelo golpe da tarde, congelou ao ver o distintivo no cinto do homem que entrava. O seu coração falhou uma batida. Tentassem manter a calma, mas o corpo trai. Ao receber o troco do funcionário da mercearia, as mãos de Artur — as mesmas mãos firmes que tinham esvaziado as vitrines da ourivesaria sem tremer — vacilaram. As moedas caíram no balcão e uma delas rolou para o chão, batendo bota do Inspector Alfama.

Alfama, por puro reflexo de cortesia, baixou-se para apanhar a moeda de cinquenta cêntimos. Quando se levantou para a entregar, olhou nos olhos de Artur. Viu a pupila dilatada, o suor frio na testa apesar do frio lá fora, e o mais importante: um minúsculo reflexo dourado no punho do casaco de Artur.

Preso no tecido do casaco, quase invisível, estava um minúsculo fio de nylon com uma etiqueta de preço vermelha, daquelas usadas para marcar joias. O tipo de etiqueta que a Gomes & Filhos usava exclusivamente na sua coleção de luxo. Alfama tinha estado no local do crime duas horas antes a recolher os primeiros depoimentos. Lembrava-se da cor das etiquetas porque uma delas tinha ficado caída no balcão da ourivesaria.

O olhar de Alfama desceu para o relógio de Artur. Um cronógrafo suíço de edição limitada, cujo número de série verificou depois, coincidir com a lista que o proprietário roubado acabara de ditar à polícia. Artur tinha-se esquecido que tirara o seu próprio relógio e o substituíra anteriormente por aquele relógio de luxo, um dos mesmo que tinha sido fruto do assalto .

— Bonito relógio — disse Alfama, com a voz calma de quem acabou de decifrar um enigma. — E o leite meio-gordo faz muito bem aos ossos. Mas acho que vamos ter de fazer uma paragem antes de ir para casa.

Artur não reagiu. Olhou para o pacote de leite na sua mão e percebeu, finalmente, a grande lição do crime: podemos planear tudo contra os homens, mas não há plano que sobreviva ao acaso.

 

( aqui no blogue mensalmente aos Sábados )



Publicação n.º 7 : edição de Julho 1968

sexta-feira, 10 de julho de 2026

 DE  REGRESSO  AO  PASSADO - OUTRAS
( aqui no blogue quinzenalmente às 6ª.s feiras )

designação da SECÇÃO POLICIÁRIA outras : 



.......... Revista completa e digitalizada do original




MA n.º 534 de 1959

quinta-feira, 9 de julho de 2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

terça-feira, 7 de julho de 2026

 DE  REGRESSO  AO  PASSADO
( aqui no blogue todas as 3ª.s feiras )

designação da SECÇÃO POLICIÁRIA : 


Revista completa e digitalizada do original .



N.º 116 de 18 de Dezembro 1975

segunda-feira, 6 de julho de 2026

 

A Misteriosa Morte do Professor

Problema apresentado no ...
... Convívio
Policiário em S.Pedro de Sintra - 31 Maio 2026


Banda desenhada original de : https://momentodopoliciario.blogspot.com

| E você … quer dar a opinião sobre este caso ? |

As respostas devem ser enviadas para : Inspetor Boavida ( Blogue Local do Crime ) mail : salvadorsantos949@gmail.com

Data limite para envio das respostas : 15 JULHO 2026

NOTA:
TODOS OS INTERESSADOS poderão enviar resposta, os Convivas presentes no Convívio realizado em S. Pedro de Sintra ou qualquer Leitor dos Blogues apreciadores de Problemística Policiária! É PARA TODOS!

PRÉMIOS PARA ESTE PASSATEMPO POLICIÁRIO:

- MELHOR SOLUÇÃO: TROFÉU MVP

- SORTEIO ENTRE TOTALISTAS: 1 CACHIMBO

- SORTEIO ENTRE NÃO TOTALISTAS: 1 LIVRO

O Assassinato de Rosa - Via MURDOKU

Desafio apresentado no ...
... Convívio
Policiário em S.Pedro de Sintra - 31 Maio 2026

 Pedro está numa Cama Luísa está ao lado de uma Floreira

Raquel está num Tapete Mário está sentado numa Cadeira

João está em frente a uma Janela  Rosa foi a Vítima


Um original de : https://momentodopoliciario.blogspot.com

| E você … quer ajudar a descobrir quem assassinou a Rosa ? |

As respostas devem ser enviadas para : Inspetor Boavida ( Blogue Local do Crime ) mail : salvadorsantos949@gmail.com

Data limite para envio das respostas : 15 JULHO 2026

NOTA:
TODOS OS INTERESSADOS poderão enviar resposta, os Convivas presentes no Convívio realizado em S. Pedro de Sintra ou qualquer Leitor dos Blogues apreciadores de Problemística Policiária! É PARA TODOS!

PRÉMIOS PARA ESTE PASSATEMPO POLICIÁRIO:

- MELHOR SOLUÇÃO: TROFÉU Família MVP

- SORTEIO ENTRE TOTALISTAS: 1 CACHIMBO

- SORTEIO ENTRE NÃO TOTALISTAS: 1 LIVRO

domingo, 5 de julho de 2026

 À VOLTA DO PASSADO
( aqui no blogue quinzenalmente aos Domingos )


designação da SECÇÃO POLICIÁRIA : 


Revista completa e digitalizada do original .



n.º 168 de 01 Agosto 1977

sábado, 4 de julho de 2026

  

( aqui no blogue mensalmente no 1.º Sábado de cada mês )

| PC - 08 |

Os Gémeos ...




Pode enviar as suas respostas até ás ... 24h00 do dia 17 ... , deste mês de Julho 2026, para viroli@sapo.pt

No dia 18 será publicada em simultâneo, a solução e assim bem como o desempenho ( de 3 a 5 ) de todos os participantes neste " Problema Curto " e, ainda a Classificação Geral !
Também será publicada a solução que mais se destacou neste Problema .

sexta-feira, 3 de julho de 2026

 

( aqui no blogue ... ocasionalmente )


O Golpe do Silêncio

A chuva batia forte contra os vidros partidos da antiga Fábrica de Tecidos Aliança. Lá dentro, o ambiente cheirava a mofo, ferro velho e... adrenalina.

Tomás "Dedos Leves" ajustou a lanterna. À sua frente estava o cofre mecânico de 1950, o "Santo Graal" daquela noite. Não havia alarmes digitais, apenas engrenagens puras. Com um estetoscópio encostado ao metal frio, ele girava o dial. Clique. Um sorriso desenhou-se-lhe no rosto. Clique. A pesada porta de ferro cedeu com um rangido. Lá dentro, um estojo de veludo guardava o colar de diamantes da dinastia imperial.

"Fácil demais", sussurrou Tomás para si mesmo, guardando a joia no casaco.

"Eu não diria fácil, Tomás. Diria que tiveste uma ajuda da casa."

A voz ecoou do topo das escadas de ferro. Tomás congelou. Uma silhueta alta e robusta recortou-se contra a pouca luz da lua que filtrava pelo tecto partido. Era o Inspector Jorge Silva, o homem que o perseguia há três anos. E, para azar de Tomás, Jorge não trazia apenas um distintivo; trazia uma pistola Glock apontada na sua direcção.

"Inspector... a trabalhar até tarde? O banco não lhe paga horas extras", tentou brincar Tomás, enquanto os seus olhos procuravam desesperadamente uma rota de fuga.

"Para ti, Tomás, eu trabalho de borla", respondeu Jorge, descendo as escadas devagar, os passos firmes ecoando no betão. "Podes pousar o estojo no chão. Devagarinho."

Tomás ergueu as mãos, mas manteve o corpo relaxado. O segredo de um bom ladrão não era apenas a agilidade das mãos, era a rapidez do cérebro.

"Sabe, Inspector... se me prender hoje, a sua carreira atinge o topo. Mas amanhã? Amanhã volta a preencher relatórios cinzentos num escritório escuro. O que seria do herói sem o vilão?"

Jorge hesitou por um milésimo de segundo, o canto da boca a tremer num quase sorriso. "Eu arrisco o tédio, Tomás."


Nesse exacto momento, o destino jogou uma cartada. Um trovão violento ecoou mesmo por cima do edifício, fazendo estremecer a estrutura velha. Um pedaço de gesso do tecto desprendeu-se e caiu mesmo entre os dois homens.

Foi a fracção de segundo que Tomás precisava. Ele não correu para a porta; atirou a sua pesada lanterna de metal directamente contra o cano da arma de Jorge. O disparo ecoou nas paredes da fábrica, mas a bala perdeu-se no tecto.

Tomás saltou para trás da carcaça de uma máquina de tecelagem. Jorge recuperou a postura imediatamente, avançando com passos tácticos.

"Estás encurralado, Tomás! A saída das traseiras está trancada!"

"Eu sei!", gritou Tomás, a sua voz parecendo vir da esquerda.

Jorge apontou a arma para a esquerda, mas foi surpreendido por um estrondo vindo da direita. Tomás tinha empurrado um armário de ferro, que caiu barulhento, levantando uma nuvem de pó densa. Quando a poeira assentou, dez segundos depois, o silêncio voltou a reinar na fábrica.

Jorge correu para a janela que dava para o beco. Olhou para baixo e viu apenas o reflexo da chuva nas poças de água. Tomás tinha desaparecido nas sombras da noite.

O inspector guardou a arma, respirou fundo e limpou o pó do casaco. Estava furioso, mas, no fundo, sentiu uma estranha palpitação de entusiasmo. Passou a mão pelo bolso para tirar o telemóvel e chamar reforços, mas os seus dedos encontraram algo diferente.

Um pedaço de papel dobrado. Jorge abriu-o.

“Obrigado pelo desafio, Inspector. Deixo-lhe isto para não voltar para o escritório de mãos vazias.”

Anexa ao papel, com uma fita adesiva, estava a chave de um cacifo da estação de comboios, onde Tomás tinha escondido o saque do seu golpe anterior.

Jorge olhou para a noite chuvosa e sorriu de lado. A caça continuava.