
Destaque deste mês para a Solução ao Problema Curto - 07
UM CRIME COM HORAS CERTAS
* * * * *
Relatório de: O Pegadas
Conclusão: O sobrinho de
Baltazar Julião cometeu o crime.
Fundamentação
da Resposta
1.
FACTORES TEMPORAIS
O
Corte de energia ocorreu entre as 21h45 às 23h00 (1h15).
O
relógio, derrubado, parou exactamente às 22h15 – “o disco interior moveu-se
juntamente com os ponteiros”, ou seja, não há desfasamento entre o
mecanismo e o mostrador: 22h15 foi, de facto, o momento da morte.
O
corpo foi descoberto às 23h15.
O
crime ocorreu às 22h15, durante
o corte de energia (entre 21h45 e 23h00). Neste momento do crime, a casa estava
(quase) totalmente às escuras — excepto pela vela na biblioteca.
2.
O DEPOIMENTO DOS SUSPEITOS
Fazendo uma análise detalhada, todos tiveram
"oportunidade" para cometer o homicídio: cada um estava sozinho, num
local diferente da casa durante o corte, sem testemunhas que confirmem o que
fizeram entre as 21h45 e as 23h00. Por isso, a oportunidade por si só, não faz
recair a suspeita sobre ninguém, portanto, é preciso encontrar alguma incoerência
factual numa das versões.
Esposa:
estava no quarto, sozinha, acendeu uma vela e leu uma revista. Sem testemunhas,
mas também sem nada que contradiga os factos relatados.
Mordomo:
estava na cozinha sozinho, preparou o chá usando o fogão a gás e esperou que a luz voltasse. Quando a luz volta (23h00),
aquece o chá, vai à biblioteca, descobre o corpo e telefona à Polícia — e nesta sequência (reaquecer o chá → caminhar até à
biblioteca → descobrir → telefonar) que se justifica a descoberta apenas às
23h15, ou seja, 15 minutos depois da luz ter voltado.
Governanta:
estava no corredor, usou a lanterna do telemóvel, arrumou os produtos de
limpeza e foi para o quarto. Não há nada que contradiga a sucessão.
Sobrinho:
estava na cave a testar o projector. Esperou cerca de uma hora no escuro (até
cerca das 22h45), desistiu, subiu às apalpadelas e foi até à rua ver o
"cenário" do “apagão”. Quando a luz regressou (23h00), entra
em casa e vê o Mordomo "muito atarefado", que lhe diz o que se
tinha passado.
⇒ 3. A
INCOERÊNCIA DO DEPOIMENTO DO SOBRINHO
Aqui
está a contradição ⇒
segundo a própria versão do Mordomo (e segundo o enunciado, que situa a
descoberta do corpo às 23h15), o Mordomo só descobre o
crime depois da luz voltar, entretanto teve que reaquecer o chá e de caminhar
até à biblioteca — ou seja, só por volta das 23h15 (hora da morte).
Mas o Sobrinho afirma que, logo às 23h00 (no preciso momento
em que a luz regressa e ele entra em casa), o Mordomo já estava
"atarefado" e aí é que lhe contou "o que se tinha passado".
Ora, às 23h00 o Mordomo ainda não tinha ido à biblioteca —
ainda nem sabia que o patrão estava morto. Não podia, portanto, ter contado
nada sobre o crime ao Sobrinho nesse momento, porque essa informação só
existiria 15 minutos mais tarde.
4.
Conclusão
|
O
Sobrinho demonstra ter conhecimento do que aconteceu antes de essa informação
existir, segundo a ordem temporal dos acontecimentos. A sua "viagem à
rua para ver o apagão" é, muito provavelmente, uma versão feita para
se ausentar do seu álibi (a cave) durante o tempo necessário, quando na
realidade se deslocou à biblioteca por volta das 22h15 — exactamente a hora
marcada pelo relógio caído, depois, atingiu o tio na nuca, e regressou
depois, tentando reconstituir alterando, os factos.
Portanto,
o assassino é o Sobrinho, e a justificação assenta na incompatibilidade
horária entre o momento em que ele afirma ter sido informado do crime (23h00) e o momento em que o crime foi efetivamente
descoberto pelo Mordomo (23h15)
⇒ uma diferença
de 15 minutos.
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OUTRAS PERSPECTIVAS PASSÍVEIS DE
ANÁLISE FORENSE
O DEPOIMENTO DO MORDOMO
O MORDOMO E A HORA DO CHÁ
O mordomo, poderá ser indiciado também como suspeito, devido
à sua própria rotina, que o poderá colocar precisamente na biblioteca, por
volta da hora do crime (22.15m). O próprio Mordomo diz que "tacteei
no escuro até encontrar a caixa de fósforos" — ou seja, ele prova ter
os meios e a capacidade de se orientar e agir no escuro totalmente, usando
fósforos. Se conseguiu fazer isso para acender o fogão, porque não o fez também
para levar o chá (com uma vela, tal como a Esposa fez no quarto, e tal como o
próprio Baltazar tinha feito na biblioteca)? Isto é uma inconsistência de
capacidade: ele resolveu o problema da escuridão para uma tarefa pequena (o
fogão), mas alega impotência total durante mais de uma hora para a tarefa maior
(entregar o chá). No entanto é plausível a acção de esperar que a luz regresse.
O MORDOMO E A VELA
Se o Mordomo só entrou na sala às 23h15 — uma hora e meia
após a vela ter sido acesa, a descrição do seu estado "quase toda
consumida" é plausível. No entanto, a referência à vela ainda acesa é
relevante: a Polícia Forense deve recolher o restante da vela, determinar o
tipo e a dimensão originais, e calcular a taxa de combustão para aferir se o
tempo decorrido é consistente com o estado em que foi encontrada. Nesta
análise, se a vela não pudesse ainda estar acesa às 23h15, o Mordomo só poderia
descrever o seu estado se tivesse estado antes no escritório enquanto ela
ardia.
Por outro lado, se a morte tivesse sido mesmo às 22h15, a
vela só teria ardido cerca de 30 minutos desde o início do corte da luz e
desta forma, não faria sentido estar “quase toda consumida”. Isso indicaria
que Baltazar morreu bem mais tarde, perto da hora em que o mordomo diz
ter ido lá… e que o relógio foi manipulado
para marcar 22h15.
O MORDOMO E A MANIPULAÇÃO DO
RELÓGIO:
A indicação do relógio como prova
da hora da morte, deve também ser questionada, dado o comportamento anómalo do
disco interior descrito no texto — o que sugere possível manipulação por parte
de quem teve acesso ao corpo antes da chegada da Polícia, portanto, o Mordomo. É
possível abrir um relógio de mesa antigo e mover manualmente os ponteiros para
a hora que se quiser, e depois deixá-lo cair para que pare nessa hora falsa.
O que
uma queda de relógio de mesa não faz, em condições normais, é avançar ou recuar os ponteiros
de forma controlada. As engrenagens de um relógio mecânico resistem à rotação
"inversa" ou "forçada" — são concebidas para rodar num
único sentido de forma contínua, não para saltar para uma hora diferente por impacto.
Portanto, o mordomo, poderia ter manipulado o relógio de forma a alterar a hora
da morte de Baltazar Julião.
Braga, Junho de 2026
O Pegadas