Um Ladrão Reformado
Evaristo "Dedos de Pluma" costumava dizer que o silêncio era o seu melhor cúmplice. Hoje, o silêncio era apenas o som do café a filtrar na cozinha às seis da manhã.
Aos sessenta anos, as mãos que outrora abriram inúmeros
cofres com a delicadeza de um cirurgião agora dedicavam-se a algo muito mais
resistente: relógios de bolso. Na sua pequena oficina nas traseiras de
casa, o único "assalto" que Evaristo planeava era contra o tempo e o
desgaste das engrenagens.
A Tentação no Balcão
Certa tarde, uma mulher elegante entrou na loja. Ela
pousou sobre o veludo um cronómetro de ouro maciço, uma peça rara do século
XIX. — O mecanismo está encravado — disse ela, com um brilho de ansiedade nos
olhos. — Disseram-me que é o único homem na cidade capaz de o tocar.
Evaristo pegou na peça. O peso era familiar. O valor
de revenda no mercado negro daria para ele viver três anos num iate no
Mediterrâneo sem nunca mais olhar para uma chave de fendas. Por um segundo, a
velha adrenalina — aquela picada eléctrica na base da nuca — despertou. Ele
sentiu os seus dedos latejarem, lembrando-se de como era fácil fazer as coisas
desaparecerem.
Ele olhou para o reflexo no ouro. Não viu o ladrão que
saltava telhados em Lisboa, mas o artesão que gostava de dormir sem
sobressaltos.
— É uma peça magnífica — murmurou Evaristo, ajustando
a sua lupa. — Mas o valor dela não está no ouro, minha senhora. Está no facto
de ainda marcar os segundos.
Ele não a roubou. Pelo contrário, trabalhou nela
durante três dias seguidos. Quando a mulher voltou, o relógio não só brilhava,
como o seu tique-taque era tão ritmado como um coração saudável.
O Fecho
Ao final do dia, Evaristo fechou a porta da loja à
chave. Antigamente, ele sabia exactamente como forçar aquela fechadura por fora.
Hoje, ele apenas se certificou de que ela estava bem trancada por dentro.
Caminhou até casa sob a luz dos candeeiros, com as
mãos nos bolsos — vazios de jóias alheias, mas cheios de uma paz que nenhum
diamante poderia comprar.
"A maior perícia de um ladrão reformado não é saber como entrar, mas saber por que razão decidiu ficar de fora."

