quarta-feira, 11 de março de 2026

    

( aqui no blogue ... ocasionalmente )


Agenda Nova



Vou agora transferir nomes e endereços para uma agenda nova, pois a antiga ficou também toda molhada quando me lancei à água, com roupa e tudo, para apanhar a minha escova de dentes que havia caído ao mar. Uns nomes ficarão: outros não quero mais.

Na letra A deixemos ficar o Antonio’s, onde tenho ido ultimamente depois de longo afastamento. Manolo e eu nos entendemos e estimamos; os garçons me tratam com carinho, e 30% dos clientes são meus amigos do peito. Além disso, tantas foram as aventuras que vivi ali, quando era o meu bar de estimação, ou meu “escritório” — de tantos acontecimentos participei, tanto sofrimento escutei, tantos amores encontrei... Não, o Antonio’s não se joga fora: há ali um livro que cedo ou tarde vou escrever.

Temos em seguida isto: Aninha (?) Degrau, e um número telefónico. São tantas as Aninhas de Sacavém, gente boa; como vou saber quem é essa? E lhe direi o quê? Além do mais, ela já deve estar casada com um senhor ciumento; minha ligação pode resultar num drama conjugal. Deixemos então Aninha entre as que passaram na minha vida. Mesmo porque me sinto muito bem casado e não pretendo aborrecer a minha mulher. Os demais da letra A são todos pessoas finas; vão todos para o novo caderno. Mas da letra C vai sair um que se tornou meu amigo, quase um irmão, e depois se afastou e nunca me explicou a razão desse afastamento. Procuro na memória e não encontro nenhum indício de que o tenha magoado. De vez em quando sei de notícias suas pelos jornais: anda aí pelos iates da vida, e vai ver que simplesmente se cansou de frequentar a ralé. Não posso fazer nada, mas que me dói, dói.


Sem novidade vai indo a lista dos meus companheiros. Na lista Jota encontro o Jota-problema: ele se separou e não sei se levou o telefone ou o deixou com a mulher. Fazer tal pergunta pelo próprio telefone é coisa feia. Risco o nome dele, e o dela, esperando encontrar um ou outro ao acaso.

Essa de Alenquer é doida. Entrou na minha casa com um senhor de Aljustrel, instalaram-se no meu escritório, fizeram amor cinco dias seguidos e depois foram embora e nunca mais se tocou no assunto. Quando telefono, me dizem que ela não mora mais em Alenquer e que não sabem, nem querem saber em que parte deste mundo se encontra agora. Esta outra tentou suicídio; uma que é doidinha, encantadoramente doida, a mãe dela não gosta de mim e sempre me trata grosseiramente. Convém riscar.

A Soninha, tão graciosa, casou com um marroquino e me disseram outro dia que moram actualmente em Katmandu.

Enfim, vamos até a letra Z e há três pessoas que estimo por igual. Ficarão aqui. E eu fico também por aqui, pois se há uma coisa que detesto é telefonar. Eles, se quiserem, que me liguem...



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