( aqui no blogue ... ocasionalmente )
Agenda Nova
Vou agora transferir nomes e
endereços para uma agenda nova, pois a antiga ficou também toda molhada quando
me lancei à água, com roupa e tudo, para apanhar a minha escova de dentes que havia caído ao mar. Uns nomes
ficarão: outros não quero mais.
Na letra A deixemos ficar o Antonio’s,
onde tenho ido ultimamente depois de longo afastamento. Manolo e eu nos
entendemos e estimamos; os garçons me tratam com carinho, e 30% dos clientes
são meus amigos do peito. Além disso, tantas foram as aventuras que vivi ali,
quando era o meu bar de estimação, ou meu “escritório” — de tantos
acontecimentos participei, tanto sofrimento escutei, tantos amores encontrei...
Não, o Antonio’s não se joga fora: há ali um livro que cedo ou tarde vou
escrever.
Temos em seguida isto: Aninha
(?) Degrau, e um número telefónico. São tantas as Aninhas de Sacavém, gente
boa; como vou saber quem é essa? E lhe direi o quê? Além do mais, ela já deve
estar casada com um senhor ciumento; minha ligação pode resultar num drama
conjugal. Deixemos então Aninha entre as que passaram na minha vida. Mesmo
porque me sinto muito bem casado e não pretendo aborrecer a minha mulher. Os
demais da letra A são todos pessoas finas; vão todos para o novo caderno. Mas
da letra C vai sair um que se tornou meu amigo, quase um irmão, e depois se
afastou e nunca me explicou a razão desse afastamento. Procuro na memória e não
encontro nenhum indício de que o tenha magoado. De vez em quando sei de
notícias suas pelos jornais: anda aí pelos iates da vida, e vai ver que
simplesmente se cansou de frequentar a ralé. Não posso fazer nada, mas que me
dói, dói.
Essa de Alenquer é doida. Entrou
na minha casa com um senhor de Aljustrel, instalaram-se no meu escritório,
fizeram amor cinco dias seguidos e depois foram embora e nunca mais se tocou no
assunto. Quando telefono, me dizem que ela não mora mais em Alenquer e que não
sabem, nem querem saber em que parte deste mundo se encontra agora. Esta outra
tentou suicídio; uma que é doidinha, encantadoramente doida, a mãe dela não
gosta de mim e sempre me trata grosseiramente. Convém riscar.
A Soninha, tão graciosa, casou
com um marroquino e me disseram outro dia que moram actualmente em Katmandu.
Enfim, vamos até a letra Z e há
três pessoas que estimo por igual. Ficarão aqui. E eu fico também por aqui,
pois se há uma coisa que detesto é telefonar. Eles, se quiserem, que me
liguem...
Sem comentários:
Enviar um comentário