( aqui no blogue ... ocasionalmente )
O ROUBO EVITADO
O plano era perfeito,
ajustado ao milímetro ao longo de meses. Marcos estava ajoelhado em frente ao
cofre da joalharia, com as ferramentas prontas e o alarme desactivado. Faltavam
apenas dois dígitos no segredo mecânico para ter nas mãos uma fortuna em
diamantes — o suficiente para mudar de vida para sempre.
Mas o silêncio daquela
noite começou a pesar-lhe nos ombros.
Olhou em volta. Na bancada
do artesão, ao lado das jóias, havia um porta-retratos com a foto de uma
família sorridente e um bilhete escrito à mão por uma criança: “Bom
trabalho, papá! Amamos-te”. Não era o cofre de uma grande corporação fria.
Era o sustento de uma vida inteira de trabalho de alguém como ele.
A ganância, que até ali lhe
parecia ambição, azedou na boca. Um nó cego deu-se-lhe no estômago. Percebeu
que nenhuma quantia em dinheiro apagaria a vergonha de olhar para o próprio
reflexo no dia seguinte.
Para garantir que o
fracasso era definitivo, reactivou o alarme manualmente. A sirene estridente
começou a ecoar pela rua deserta.
Correu para fora, sem levar
uma única pedra preciosa. Apanhou a chuva fria na cara enquanto dobrava a
esquina, ouvindo já as primeiras sirenes da polícia ao longe. De bolsos vazios
e coração leve, Marcos sorriu pela primeira vez em meses: tinha acabado de
perder tudo, mas recuperara a própria alma.
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