segunda-feira, 24 de agosto de 2026

 

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O Alfaiate de Sombras

A cela número 14 tinha exactamente três passos de largura por quatro de comprimento. Para Samuel, um professor de literatura condenado por ousar pensar diferente do regime, aquele espaço deveria ser o seu túmulo psicológico. Os guardas sabiam que o isolamento quebrava um homem mais rápido do que a fome.

Nos primeiros meses, o silêncio e a humidade quase o engoliram. Mas Samuel tomou uma decisão: eles podiam trancar o seu corpo, mas não tinham a chave da sua mente.

Todas as manhãs, após o som estridente da sirene que anunciava o amanhecer, Samuel iniciava a sua rotina de sobrevivência.

Às 8:00: Ele caminhava os três passos de um lado para o outro, durante uma hora, imaginando que estava a passear pelas ruas de Lisboa, cumprimentando vizinhos invisíveis.

Às 10:00: Ele sentava-se no chão de cimento e, usando um pequeno pedaço de carvão que encontrara no pátio, escrevia poemas e equações na sola dos seus sapatos. Quando a sola ficava preta, ele apagava tudo com a saliva e o próprio dedo, pronto para recomeçar no dia seguinte.

Às 14:00: Era a hora da "pesca".

A cela tinha uma única e minúscula fresta de luz no alto da parede de pedra. Durante trinta minutos por dia, um raio de sol cruzava o ambiente. Samuel posicionava-se exactamente onde o raio tocava o chão. Ele fechava os olhos e sentia o calor na pele. Naqueles trinta minutos, ele não era um prisioneiro; ele estava numa praia, ou num parque, ou abraçando a sua filha.

Os guardas observavam-no pelo “olho-mágico”. Esperavam ver um homem a chorar, a implorar ou a falar sozinho com desespero. Em vez disso, viam Samuel com uma postura erecta, os olhos calmos e um leve sorriso no rosto. Isso os enfurecia.

Um dia, o chefe da guarda, um homem brutal chamado inspector Santos, entrou na cela.


— Do que é que te estás a rir, 14 ? — rosnou Santos, batendo com o bastão de ferro na parede. — Achas que isto é um hotel? Tu vais morrer aqui dentro. Ninguém se lembra de ti lá fora.

Samuel olhou para o guarda. Não havia ódio nos seus olhos, apenas uma quietude profunda.

— O senhor pode controlar as paredes que me cercam, inspector — disse Samuel, com a voz serena. — Pode controlar a comida que me dá e as roupas que visto. Mas a minha mente? Essa continua a ser minha. Hoje de manhã, eu li três livros, visitei a minha mãe e caminhei à beira-mar. O senhor tem a chave da cela, mas eu tenho a chave do meu mundo.

Santos recuou um passo, confuso e secretamente assustado com aquela força que não vinha dos músculos, mas do espírito. Saiu batendo a porta de ferro.

Os anos passaram. O regime político acabou por cair, e as portas da prisão foram abertas.

Quando Samuel saiu para a luz do dia, os seus cabelos estavam brancos e as suas mãos calejadas, mas os seus olhos brilhavam com a mesma vivacidade do dia em que entrara. Os outros prisioneiros saíram quebrados, mas Samuel saiu inteiro. Ele não tinha apenas sobrevivido ao cativeiro; ele tinha-o vencido dia após dia, provando que a resiliência é a recusa absoluta de entregar a nossa dignidade e a nossa liberdade interior a quem quer que seja.

2 comentários:

  1. Parabéns. É uma ode à verdadeira liberdade. A liberdade do espírito.

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  2. "Não há machado que corte a raiz ao pensamento".

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