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" Segundo o Dr. Raul Machado, Presidente da Sociedade de Língua Portuguesa, o termo Policiário, como adjectivo, saiu a primeira vez da mão de FERNANDO PESSOA, em carta dirigida a ADOLFO CASAIS MONTEIRO, no dia 13 DE JANEIRO DE 1935.
Filologia
POLICIAL
OU POLICIÁRIO?
por DR. RAUL MACHADO
Presidente
da Sociedade de Língua Portuguesa
O
adjectivo policial só
aparece registado a primeira vez na 2.ª edição do dicionário de Morais (a 1.ª,
de 1813, não inclui o termo); encontra-se ele depois em todas as edições até à
9.ª (a 10.ª ainda não chegou a essa palavra, nem sequer à letra P)
Não
custa nada afirmar que todos os dicionários e vocabulários, de maior ou menor
categoria — foram manuseados para este fim doze léxicos diferentes, além dos
referidos acima — todos, sem excepção, arquivam o vocábulo policial
É,
pois, lícito inferir que, pela consulta dos registos vocabulares existentes no
país, o adjectivo policiário
é um neologismo de criação recente, ainda não incluído nos léxicos nacionais
Quem
terá criado esse neologismo?
Parece
que o termo policiário,
como adjectivo, saiu a primeira vez da mão de Fernando Pessoa, em carta
dirigida a Adolfo Casais Monteiro, no dia 13 de Janeiro de 1935, e publicada na
«Antologia de Autores Portugueses e Estrangeiros» - Poesia - Fernando Pessoa -
Segundo Volume, pág. 10, onde se lê a seguinte expressão: «novela policiária»
Criado,
esse adjectivo novo tem proliferado largamente em múltiplas expressões, como
«problema policiário», «coisa policiária», «família policiária», «colecção
policiária»
As expressões e frases agora citadas, com o termo policiário, adjetivo e substantivo, respigaram-se na Separata n.º 4 (Vol. 30) da Coleção XIS
Nesta mesma separata se observa que, a propósito de uma festa do semanário Cartaz, alguém usou, ao microfone e na representação, «dezenas de vezes o termo policial, e nem uma só o policiário»
Em outro local, na «História do Conto Policial» de Vítor Palla, empregando-se com largueza a palavra policial, acrescenta-se «policiárias, dizia Fernando Pessoa»
O aparecimento do vocábulo na carta do poeta da Mensagem para Casais Monteiro, a paternidade do termo atribuída a Fernando Pessoa, o uso recente e abundante da palavra, dão-nos a convicção de que antes de 1935 não havia penetrado no léxico em Portugal o adjetivo policiário
Perguntar-se-á agora se o termo policiário, adjetivo e substantivo, fazia ou faz falta na língua portuguesa, onde vive, há mais de cem anos, a palavra policial
Notemos, antes de mais nada, o facto palpável da existência atual de um género novo de literatura de ficção em que abundam os temas de caráter policial
Tais crimes fictícios, praticados e expostos para matar ócios e para aguçar a perspicácia policial dos leitores, existem apenas como imitação e elaboração romanceada de casos que poderiam, infelizmente, ter acontecido, mas, felizmente, só acontecem na fantasia
Parece-me, por isso, que à existência recente deste género literário, ou desta tendência da literatura de ficção, em livros, jornais e revistas, lhe quadra bem o adjetivo policiário, recém-criado
Quanto ao substantivo... Julgo que este deveria empregar-se não sob a forma substantivada do adjetivo masculino (o policiário), mas sob a forma do feminino, a policiária; e englobaria a (matéria) policiária, a (técnica) policiária, a (questão) policiária, a (literatura) policiária, etc
Seja, porém, como for, eu por mim inclino-me para o adjectivo biforme, policiário — a, e para o substantivo, a policiária
Muito interessante e instrutivo. Obrigada👍👋👏
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