quarta-feira, 1 de julho de 2026

 

Destaque deste mês para a Solução ao Problema Curto - 07


UM CRIME COM HORAS CERTAS
* * * * *

Relatório de: O Pegadas

  Conclusão: O sobrinho de Baltazar Julião cometeu o crime.

 Fundamentação da Resposta

 1. FACTORES TEMPORAIS

 O Corte de energia ocorreu entre as 21h45 às 23h00 (1h15).

O relógio, derrubado, parou exactamente às 22h15 – “o disco interior moveu-se juntamente com os ponteiros”, ou seja, não há desfasamento entre o mecanismo e o mostrador: 22h15 foi, de facto, o momento da morte.

O corpo foi descoberto às 23h15.

 O crime ocorreu às 22h15, durante o corte de energia (entre 21h45 e 23h00). Neste momento do crime, a casa estava (quase) totalmente às escuras — excepto pela vela na biblioteca.

 2. O DEPOIMENTO DOS SUSPEITOS

 Fazendo uma análise detalhada, todos tiveram "oportunidade" para cometer o homicídio: cada um estava sozinho, num local diferente da casa durante o corte, sem testemunhas que confirmem o que fizeram entre as 21h45 e as 23h00. Por isso, a oportunidade por si só, não faz recair a suspeita sobre ninguém, portanto, é preciso encontrar alguma incoerência factual numa das versões.

 Esposa: estava no quarto, sozinha, acendeu uma vela e leu uma revista. Sem testemunhas, mas também sem nada que contradiga os factos relatados.

 Mordomo: estava na cozinha sozinho, preparou o chá usando o fogão a gás e esperou que  a luz voltasse. Quando a luz volta (23h00), aquece o chá, vai à biblioteca, descobre o corpo e telefona à Polícia — e nesta sequência (reaquecer o chá → caminhar até à biblioteca → descobrir → telefonar) que se justifica a descoberta apenas às 23h15, ou seja, 15 minutos depois da luz ter voltado.

 Governanta: estava no corredor, usou a lanterna do telemóvel, arrumou os produtos de limpeza e foi para o quarto. Não há nada que contradiga a sucessão.

 Sobrinho: estava na cave a testar o projector. Esperou cerca de uma hora no escuro (até cerca das 22h45), desistiu, subiu às apalpadelas e foi até à rua ver o "cenário" do “apagão”. Quando a luz regressou (23h00), entra em casa e vê o Mordomo "muito atarefado", que lhe diz o que se tinha passado.

  3. A INCOERÊNCIA DO DEPOIMENTO DO SOBRINHO

 Aqui está a contradição segundo a própria versão do Mordomo (e segundo o enunciado, que situa a descoberta do corpo às 23h15), o Mordomo só descobre o crime depois da luz voltar, entretanto teve que reaquecer o chá e de caminhar até à biblioteca — ou seja, só por volta das 23h15 (hora da morte).

 Mas o Sobrinho afirma que, logo às 23h00 (no preciso momento em que a luz regressa e ele entra em casa), o Mordomo já estava "atarefado" e aí é que lhe contou "o que se tinha passado".

 Ora, às 23h00 o Mordomo ainda não tinha ido à biblioteca — ainda nem sabia que o patrão estava morto. Não podia, portanto, ter contado nada sobre o crime ao Sobrinho nesse momento, porque essa informação só existiria 15 minutos mais tarde.

 4. Conclusão 

O Sobrinho demonstra ter conhecimento do que aconteceu antes de essa informação existir, segundo a ordem temporal dos acontecimentos. A sua "viagem à rua para ver o apagão" é, muito provavelmente, uma versão feita para se ausentar do seu álibi (a cave) durante o tempo necessário, quando na realidade se deslocou à biblioteca por volta das 22h15 — exactamente a hora marcada pelo relógio caído, depois, atingiu o tio na nuca, e regressou depois, tentando reconstituir alterando, os factos.

Portanto, o assassino é o Sobrinho, e a justificação assenta na incompatibilidade horária entre o momento em que ele afirma ter sido informado do crime (23h00) e o momento em que o crime foi efetivamente descoberto pelo Mordomo (23h15)

  uma diferença de 15 minutos. 

 

 OUTRAS PERSPECTIVAS PASSÍVEIS DE ANÁLISE FORENSE 

O DEPOIMENTO DO MORDOMO

 O MORDOMO E A HORA DO CHÁ

 O mordomo, poderá ser indiciado também como suspeito, devido à sua própria rotina, que o poderá colocar precisamente na biblioteca, por volta da hora do crime (22.15m). O próprio Mordomo diz que "tacteei no escuro até encontrar a caixa de fósforos" — ou seja, ele prova ter os meios e a capacidade de se orientar e agir no escuro totalmente, usando fósforos. Se conseguiu fazer isso para acender o fogão, porque não o fez também para levar o chá (com uma vela, tal como a Esposa fez no quarto, e tal como o próprio Baltazar tinha feito na biblioteca)? Isto é uma inconsistência de capacidade: ele resolveu o problema da escuridão para uma tarefa pequena (o fogão), mas alega impotência total durante mais de uma hora para a tarefa maior (entregar o chá). No entanto é plausível a acção de esperar que a luz regresse.

 O MORDOMO E A VELA

 Se o Mordomo só entrou na sala às 23h15 — uma hora e meia após a vela ter sido acesa, a descrição do seu estado "quase toda consumida" é plausível. No entanto, a referência à vela ainda acesa é relevante: a Polícia Forense deve recolher o restante da vela, determinar o tipo e a dimensão originais, e calcular a taxa de combustão para aferir se o tempo decorrido é consistente com o estado em que foi encontrada. Nesta análise, se a vela não pudesse ainda estar acesa às 23h15, o Mordomo só poderia descrever o seu estado se tivesse estado antes no escritório enquanto ela ardia.

Por outro lado, se a morte tivesse sido mesmo às 22h15, a vela só teria ardido cerca de 30 minutos desde o início do corte da luz e desta forma, não faria sentido estar “quase toda consumida”. Isso indicaria que Baltazar morreu bem mais tarde, perto da hora em que o mordomo diz ter ido lá… e que o relógio foi manipulado para marcar 22h15.

 O MORDOMO E A MANIPULAÇÃO DO RELÓGIO:

 A indicação do relógio como prova da hora da morte, deve também ser questionada, dado o comportamento anómalo do disco interior descrito no texto — o que sugere possível manipulação por parte de quem teve acesso ao corpo antes da chegada da Polícia, portanto, o Mordomo. É possível abrir um relógio de mesa antigo e mover manualmente os ponteiros para a hora que se quiser, e depois deixá-lo cair para que pare nessa hora falsa.

 O que uma queda de relógio de mesa não faz, em condições normais, é avançar ou recuar os ponteiros de forma controlada. As engrenagens de um relógio mecânico resistem à rotação "inversa" ou "forçada" — são concebidas para rodar num único sentido de forma contínua, não para saltar para uma hora diferente por impacto. Portanto, o mordomo, poderia ter manipulado o relógio de forma a alterar a hora da morte de Baltazar Julião.

 Braga, Junho de 2026

O Pegadas

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