( aqui no blogue ... ocasionalmente )
O Ponto Cego do
Destino
O vidro estilhaçado no asfalto brilha como estrelas
caídas, mas não há nenhuma beleza na cena. O cheiro de pneu queimado, o som
metálico do motor que ainda estala enquanto esfria e o silêncio sufocante que
se segue ao estrondo. Em uma fracção de segundo, a linha recta da vida comum
entorta-se para sempre.
Ele pisca os olhos, tentando afastar a névoa da
colisão. O airbag murcha lentamente diante do seu peito. A primeira reacção do
corpo não é a dor dos próprios arranhões ou o sangue que escorre pela testa; é
o instinto cego e desesperado que o faz virar o pescoço em direcção ao banco do
passageiro.
— Filho ?
A palavra sai rasgada, sem fôlego. Ali, preso pelo
cinto de segurança, está o seu bem mais precioso. Naquele instante, o mundo
exterior — os carros que reduzem a velocidade para olhar, as sirenes que
começam a ecoar ao longe — desaparece. O universo inteiro se resume ao espaço
confinado daquele veículo destruído.
Seja qual for o desfecho nas horas seguintes dentro de um hospital, o indivíduo que sai de um acidente dessas proporções nunca é o mesmo que entrou no carro.
Se o filho sobrevive sem sequelas, fica a cicatriz
invisível do trauma — o medo de segurar o volante novamente, o sobressalto a
cada travagem brusca, a gratidão eterna misturada ao fantasma do
"quase". Se o desfecho for trágico, inicia-se a jornada mais íngreme
que a psicologia humana conhece: o processo de perdoar a si mesmo por não ter
sido capaz de prever o imprevisível, e aprender a carregar o luto sem se deixar
esmagar por ele.
O carro pode ser reconstruído ou substituído, mas a
alma de quem viveu o pesadelo de um acidente com o próprio filho passa por uma
metamorfose forçada. Descobre-se, da maneira mais violenta possível, que o amor
de quem cuida é imenso, mas que a vida, infelizmente, é soberana e
terrivelmente frágil.
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