quarta-feira, 17 de junho de 2026

 
( aqui no blogue mensalmente ás 4ª. feiras )

REENCONTRO

O dia nascera cinzento, estranho, um dia sem interpretação, mas fora o dia em que saíra do hospital. Apanhou o autocarro para o bairro onde habitava, e procurava a casa, onde apesar de ter as rendas todas pagas, a senhoria lhe movera uma acção de despejo, por não gostar do seu sorriso, dizia ela. Ao apear-se, viu a vizinha que era simpática com ele e o tratava bem, com amizade. Ela ia distraída, mas ao ouvir passos, levantou a cabeça e disse-lhe: ‒ Bons olhos o vejam. Pronto para outra?
‒ Oxalá que não, pelo menos sem primeiro recuperar bem desta, que me pôs entre a vida e a morte. ‒ É, pensei que o não voltasse a ver com vida, a medicina atual faz milagres. ‒ Estava todo partido. Praticamente sem conserto, mas continuo para grande infelicidade geral, a incomodar a humanidade.
‒ Vem até minha casa grande “coirão” ‒ disse-lhe a amiga. Tu não sabes, mas comprei um casal, ‒ continuou ela ‒ casa armazém e palheiros tudo remodelado.
A parte cultivável toda amanhada, é um mimo, é um gosto. Desratização efectuada. ‒ Muito me apraz ouvir-te Maria. Regozijo-me com a tua felicidade. E é perto o teu casal? ‒ Mesmo indo a pé, é um instante, não desperdices o teu rico dinheirinho num hotel, vem passar uns dias comigo, e podes-me ajudar na lavoura e a recolher a colheita. ‒ E tens café? Não te recordas?
Da mesma maneira que um tractor não funciona sem gasóleo, eu não funciono sem café, esse bravo estimulante para o trabalho! ‒ Tenho um lote de café com uma aroma, que mesmo aspirada ao de leve, é capaz de ressuscitar qualquer defunto recém enterrado. ‒ Só acredito provando! E foram os dois a pé pela vereda fora, depois pela serventia de terra batida de acesso ao olival, à vinha e depois à casa. 


E a habitação era linda. Entrou para a casa de fora, como chamavam na região, à sala de estar. A amiga pôs a chaleira ao lume. Pouco depois o café estava preparado. ‒ Prova caro amigo. Espera, não sei do açúcar. E procurou, pelas prateleiras da cozinha, finalmente encontrou um pacote. Tirou uma colherada, e adoçou o o café do amigo. ‒ Está de estalo ‒ disse-lhe ele.
‒ É bom! ‒ Vamos até à vinha, ver como pinta o bago, e respirar o ar deste pedaço de campo, encravado na cidade. E de mão dada avançaram pelo terra directa à vinha. Quando de repente, ele deitou as mãos à barriga, começou aos vómitos, caiu com a cara torcida por esganes de dor, rebolando-se no chão. Ela aflita!
‒ “Ó” da guarda! ‒ Pegou no telemóvel para ligar para o 112. Não tem rede. Corre para a casa onde tem o telefone físico. Pegou no auscultador e começou a fazer a chamada, olhou por acaso para o pacote de açúcar, e ao ler o rótulo em que não tinha reparado, caiu no chão inanimada, o auscultador caído fora do suporte sem acabar a chamada. Dizia o rótulo: 605 FORTE.





Detective Balld Dkall



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