( aqui no blogue ... ocasionalmente )
UMA DECISÃO EQUILIBRADA
O Inspector Alfama tinha as mãos frias, mas o coração
estava quente. Finalmente, após três meses de perseguição por ruelas húmidas e
armazéns abandonados, tinha o "Gato" algemado no banco de trás do
carro patrulha.
O "Gato", cujo nome real era Jorge, não era
o que Alfama esperava. Não era um rufia musculado, mas um homem magro, de olhar
cansado e ombros curvados.
"Acabou, Jorge," disse Alfama, ajustando o
retrovisor. "O assalto à farmácia foi o teu último erro. As câmaras não
mentem."
Jorge não respondeu de imediato. Olhava pela janela
para os prédios degradados do bairro social. "Eu sei, senhor Inspector.
Mas o remédio... o remédio chegou a tempo. É a única coisa que me
importa."
Durante o trajecto de vinte minutos até à esquadra, o
silêncio foi interrompido apenas pelo rádio da polícia. Alfama conhecia o
registo de Jorge : pequenos furtos, sempre de bens essenciais. Desta vez, o
"roubo" fora um lote de insulina de alto custo e um inalador.
"A minha filha," corrigiu Jorge. "Sete
anos. O Estado diz que não somos prioridade para o subsídio. Se eu não tivesse
entrado naquela farmácia, ela não passava de hoje. Pode prender-me, Inspector.
Mas, por favor, garanta que ninguém lhe tira o que eu lhe levei."
Alfama parou o carro num semáforo a escassos 100
metros da esquadra. O silêncio no habitáculo tornou-se ensurdecedor. O
Inspector olhou para as chaves das algemas no painel e depois para o homem no
banco de trás, que chorava em silêncio, sem implorar pela liberdade, apenas
aceitando o destino.
"A lei é cega," pensou Alfama, "mas a
justiça deveria ter olhos."
O Inspector suspirou e destrancou as portas do carro.
"O trinco da porta de trás está com defeito, Jorge,"
disse Alfama, olhando fixamente para a estrada, sem se virar. "E eu
preciso de ir buscar um café. Vou demorar exactamente cinco minutos. Se eu
voltar e o carro estiver vazio, vou ter de reportar uma falha de segurança
gravíssima e perseguir-te amanhã."
Jorge paralisou. A porta abriu-se com um clique suave.
Quando Alfama regressou ao carro com um copo de papel
vazio na mão, o banco de trás estava deserto. Apenas as algemas abertas estavam
sobre o estofos de couro, do banco.
Alfama sentou-se, ligou o motor e pegou no rádio. — Central,
aqui Inspector Alfama. O suspeito conseguiu evadir-se durante a transferência
devido a uma falha mecânica na viatura. Vou iniciar buscas nas imediações.
Ele sabia que não o ia procurar. Pelo menos, não hoje. Amanhã a caça recomeçaria, mas nesta noite, uma criança iria conseguir respirar … para poder viver !
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