segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

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UMA DECISÃO EQUILIBRADA

O Inspector Alfama tinha as mãos frias, mas o coração estava quente. Finalmente, após três meses de perseguição por ruelas húmidas e armazéns abandonados, tinha o "Gato" algemado no banco de trás do carro patrulha.

O "Gato", cujo nome real era Jorge, não era o que Alfama esperava. Não era um rufia musculado, mas um homem magro, de olhar cansado e ombros curvados.

"Acabou, Jorge," disse Alfama, ajustando o retrovisor. "O assalto à farmácia foi o teu último erro. As câmaras não mentem."

Jorge não respondeu de imediato. Olhava pela janela para os prédios degradados do bairro social. "Eu sei, senhor Inspector. Mas o remédio... o remédio chegou a tempo. É a única coisa que me importa."

Durante o trajecto de vinte minutos até à esquadra, o silêncio foi interrompido apenas pelo rádio da polícia. Alfama conhecia o registo de Jorge : pequenos furtos, sempre de bens essenciais. Desta vez, o "roubo" fora um lote de insulina de alto custo e um inalador.

"A tua mulher está sozinha?" perguntou Alfama, a voz perdendo a rigidez profissional.

"A minha filha," corrigiu Jorge. "Sete anos. O Estado diz que não somos prioridade para o subsídio. Se eu não tivesse entrado naquela farmácia, ela não passava de hoje. Pode prender-me, Inspector. Mas, por favor, garanta que ninguém lhe tira o que eu lhe levei."

Alfama parou o carro num semáforo a escassos 100 metros da esquadra. O silêncio no habitáculo tornou-se ensurdecedor. O Inspector olhou para as chaves das algemas no painel e depois para o homem no banco de trás, que chorava em silêncio, sem implorar pela liberdade, apenas aceitando o destino.

"A lei é cega," pensou Alfama, "mas a justiça deveria ter olhos."

O Inspector suspirou e destrancou as portas do carro.

"O trinco da porta de trás está com defeito, Jorge," disse Alfama, olhando fixamente para a estrada, sem se virar. "E eu preciso de ir buscar um café. Vou demorar exactamente cinco minutos. Se eu voltar e o carro estiver vazio, vou ter de reportar uma falha de segurança gravíssima e perseguir-te amanhã."

Jorge paralisou. A porta abriu-se com um clique suave.

Quando Alfama regressou ao carro com um copo de papel vazio na mão, o banco de trás estava deserto. Apenas as algemas abertas estavam sobre o estofos de couro, do banco.

Alfama sentou-se, ligou o motor e pegou no rádio. — Central, aqui Inspector Alfama. O suspeito conseguiu evadir-se durante a transferência devido a uma falha mecânica na viatura. Vou iniciar buscas nas imediações.

Ele sabia que não o ia procurar. Pelo menos, não hoje. Amanhã a caça recomeçaria, mas nesta noite, uma criança iria conseguir respirar … para poder viver !

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