sexta-feira, 8 de maio de 2026

 

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A VINGANÇA

O Inspector Alfama deslizou a luva de pelica sobre a borda da escrivaninha, observando o Barão. O homem jazia imóvel, uma mancha carmesim se expandindo pelo tapete persa. A porta estava trancada por dentro, as janelas lacradas pelo frio do inverno. Um "crime de quarto fechado" clássico, digno dos tablóides de Londres.

— Alguma pista, senhor? — perguntou o jovem sargento, a voz trémula ao entrar no recinto.

Alfama não se virou. Ele apenas apontou para uma pequena fresta na moldura da janela, um detalhe quase invisível.

— Veja ali, rapaz. O assassino usou um fio de nylon para puxar o trinco por fora. Um amador tentando ser esperto. Já vi esse truque uma dúzia de vezes.

O sargento anotou tudo, maravilhado com a sagacidade do mentor. Alfama deu instruções detalhadas sobre como rastrear o suposto invasor pelos jardins lamacentos. Assim que os passos do subordinado ecoaram longe no corredor, o Inspector relaxou os ombros.


Ele caminhou até ao corpo e, com uma pinça, removeu um minúsculo fragmento de vidro que ele mesmo havia colocado na gola da vítima. Alfama então abriu o próprio relógio de bolso; dentro, não havia engrenagens, mas o mecanismo de disparo que ele projectara para silenciar o Barão antes mesmo de entrar na sala.

O imprevisto não era o Inspector ser o assassino — isso ele já sabia há meses, desde que planeara a vingança. O imprevisto veio quando Alfama notou, no reflexo do espelho da estante, o cano de uma arma encostado à sua própria nuca.

— Belo monólogo, Inspector — sussurrou o sargento, que nunca havia saído do quarto. — Mas o seguro de vida do Barão só paga se o assassino for preso... ou morto em "legítima defesa" por um herói da polícia como eu.

O Inspector sorriu, sentindo o frio do metal. Ele tinha ensinado o rapaz bem demais.

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