segunda-feira, 27 de abril de 2026


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O Crime do 3.º Esquerdo

A cidade não dorme, mas às três da manhã costuma fingir que está em coma. O silêncio só foi quebrado pelo som metálico de uma fechadura forçada — um estalido seco, como o de um osso a partir.

O Inspector Alfama entrou no apartamento do 3º Esquerdo sem pressa. No chão da sala, a vítima: um candeeiro de cristal estilhaçado e uma garrafa de vinho tinto entornada, manchando o tapete persa como um mapa de um país que já não existe. Não havia corpo, apenas o vazio de quem saiu a correr.

— É o terceiro esta semana, Inspector — disse o agente novato, apontando para a janela aberta. — Levam as pratas, deixam a confusão.


Alfama aproximou-se da mesa. Em cima dela, um cinzeiro com um único cigarro ainda a fumegar. Estranho. Ladrões não fumam no local do crime; têm pressa, têm pulmões a zumbir de adrenalina. Ele olhou para as paredes despidas. Não faltavam pratas. Faltavam as molduras.

— Eles não querem o valor, miúdo — murmurou Alfama, guardando o cigarro num saco de provas. — Querem a prova.

Esta "Crónicas ao Acaso" não foi sobre um roubo de bens, mas sobre o roubo de memórias. Alguém estava a apagar o passado daquela rua, moldura a moldura, deixando apenas o rasto de vinho barato e o cheiro a tabaco de má qualidade.

Na rua, a sirene de uma ambulância ao longe lembrava que, para alguns, o crime é uma questão de sangue. Para outros, como o fantasma do 3º Esquerdo, era apenas uma questão de não deixar rasto de quem se foi.


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