O Crime do 3.º Esquerdo
A cidade não dorme, mas às três da manhã costuma fingir que está em coma. O silêncio só foi quebrado pelo som metálico de uma fechadura forçada — um estalido seco, como o de um osso a partir.
O Inspector Alfama
entrou no apartamento do 3º Esquerdo sem pressa. No chão da sala, a vítima: um
candeeiro de cristal estilhaçado e uma garrafa de vinho tinto entornada,
manchando o tapete persa como um mapa de um país que já não existe. Não havia
corpo, apenas o vazio de quem saiu a correr.
— É o terceiro
esta semana, Inspector — disse o agente novato, apontando para a janela aberta.
— Levam as pratas, deixam a confusão.
— Eles não
querem o valor, miúdo — murmurou Alfama, guardando o cigarro num saco de
provas. — Querem a prova.
Esta "Crónicas ao Acaso" não foi sobre um roubo de bens, mas sobre o roubo de memórias.
Alguém estava a apagar o passado daquela rua, moldura a moldura, deixando
apenas o rasto de vinho barato e o cheiro a tabaco de má qualidade.
Na rua, a
sirene de uma ambulância ao longe lembrava que, para alguns, o crime é uma
questão de sangue. Para outros, como o fantasma do 3º Esquerdo, era apenas uma
questão de não deixar rasto de quem se foi.
uma verdade escondida (SP)
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