sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 
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Uma visita indesejada


Era uma manhã atarefada naquele hospital. O inverno chegara em força e as doenças respiratórias dominavam as queixas naquela sala de urgências. Para a triagem, estava escalada a enfermeira Júlia, que, dotada de uma perspicácia extraordinária, recolhia dados habituais dos pacientes: dor, temperatura, sintomas e historial clínico. Enquanto uns colegas achavam que Júlia descortinava o que estava para lá do olhar comum, outros afirmavam que ela via coisas. Sentada à secretária, com um ar muito compenetrado, ia distribuindo as pulseiras segundo a Triagem de Manchester. Esta visa priorizar o atendimento conforme a gravidade clínica do paciente, garantindo que os casos mais urgentes recebam assistência imediata e que os recursos sejam usados de forma eficiente. E Júlia fazia-o melhor do que ninguém. Talvez fosse essa a razão pela qual era requisitada tantas vezes para a triagem.


À tarde, após o horário das visitas, Júlia dirigiu-se ao 2º piso e por lá ficou até ao fim do turno. Entre toques de campainhas, gemidos de dor, apitos de aparelhos e distribuição da medicação, Júlia visitou os oito pacientes daquela ala. Um deles, o Sr. Henrique, nonagenário, despertava-lhe uma enorme compaixão. Viúvo, tivera dois filhos, aos quais sobrevivera e os netos viviam longe, sendo o contacto quase inexistente. A sua situação clínica era preocupante, razão pela qual permanecia internado. Júlia fora vê-lo antes do turno terminar. Achou-o mais pálido do que o habitual, mas como estava a dormitar, ela deixou-o sossegar e saiu sem fazer barulho.

Foi ao cacifo buscar o seu casaco e a sua mala, despediu-se dos colegas e atravessou o longo corredor, absorta nos seus pensamentos. Foi então que a viu. O seu coração começou a bater descompassadamente, mas o seu rosto não o denunciou. Esboçou um sorriso triste e, num fio de voz, provocou:

- Então, D. Morte, quem é que vem buscar hoje?


Detective Verdinha



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