( aqui no blogue ... ocasionalmente )
A Prenda incómoda
— Que vou fazer com este cavalo? — Interrogou-se João Pestana,
tropeçando numa cadeira. A dor da pancada no joelho impediu-o de responder a si
mesmo, e o cavalo tão pouco parecia disposto a escolher um destino. Ali o
puseram, ali ficaria. Há, presentes incómodos. Se o presente assume a forma
inusitada de cavalo, fica-se com raiva da espécie, tão nobre e gentil, mas
incompatível com a vida em apartamento. Também ocorreu ao João ter raiva do
amigo que o mimoseara com objecto de tal porte.
Pois o cavalo era pequeno para cavalo, mas enorme para
decoração. Do tamanho de um cavalinho de puxar charrete de criança no parque ?
Talvez maior até. João procurou a fita métrica de costura da mulher, mediu a
altura do bicho. Estava abaixo do metro e 50 de um manga-larga comum, mas
excedia os 90 centímetros de um fraque. Com a medição, ficou esquecido o desejo
de sentir raiva do presenteador. Mas o desejo voltou, e João teve vontade de
devolver o cavalo.
João lembrou-se daquele conto de Tchecov: o médico que recebe de
um cliente agradecido, proprietário de uma loja de antiguidades, um candelabro
de bronze, sustentado por mulheres nuas e um tanto marotas. “Agradeço, mas não
posso botar isso em meu consultório”, diz ele. O cliente insiste: “Não me faça
esta desfeita, doutor. É uma obra de arte preciosa. Pena é que falte a outra
peça, pois trata-se de um par. Mas logo que eu consiga a outra, venho trazê-la
para o senhor”. O médico, vencido, mas inconformado, oferece o candelabro a um
advogado que lhe ganhara uma causa. Mas este não pode expô-lo no escritório,
frequentado por senhoras. Passa-o a um actor cómico, que, sendo actor cómico...
Ele também não quer o candelabro, e vende-o ao antiquário. Este, feliz da vida,
leva-o em triunfo ao médico: “Doutor, aqui está a segunda peça que eu lhe
prometi”!
João recuou, pensando que o cavalo podia voltar uma, duas vezes,
para sempre. Enchendo seu escritório e sua vida.
Que fazer ? Fica para a próxima.
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