( aqui no blogue ... ocasionalmente )
O crime compensa ?
Joaquim Malapata, 23 anos, louro, do
tipo magricelas, ensino fundamental terminado aos trambulhões, nascido e
criado no conjunto habitacional das Arroteias , zona Oeste, aglomerado habitacional que
convive com clima similar ao do "deserto", marcando sempre a temperatura máxima
da zona no verão e muitas vezes convivendo com a mínima do inverno.
Num bairro que se desenvolveu a
partir da Fábrica de Telhas Criolé e sua prodigiosa produção rural, onde mais
tarde foi escolhida para receber boa parte da população removida dos bairros da
lata de diversas zonas e de outros trópicos .
Nos periódicos da cidade, o Oeste
Sport Clube frequentou com destaque as páginas de desporto, a partir de equipas
que conseguiram ser campeões da segunda divisão de futebol.
A região também se popularizou como
berço do lendário Serafim Menezes, vendedor de rifas estiloso, que além de
apreciar bons repastos nutria devoção
especial pelo clube local, onde foi a logo alçado ao patamar de patrono do
clube.
Joaquim assistia passivamente esse
cenário onde o destino dos seus colegas, que como ele com pouca propensão aos
estudos, tinha consciência que seu destino logo a frente se resumiria a duas
possibilidades de crescimento profissional, ambas com alto risco, a primeira
passar no concurso para a GNR, a outra bem mais fácil, porém com risco
significativamente mais alto, filiar-se no exército dos esquemas e acções
sociais paralelas.
Com menos de um ano de farda Custódio
e Leonardo, podiam ser vistos regularmente circulando bem acompanhado pelas
acanhadas ruas do bairro, ora em motocicletas destas com mais de mil
cilindradas, ora em reluzentes carrões seminovos. Existe estímulo maior?
Isso enchia de admiração os olhos de
Joaquim, sonhava acordado com essa nova realidade para si também, e não
escondia de ninguém, inclusive de seus colegas da repartição pública municipal
onde trabalhava.
Não tinha a menor vergonha de
confessar, sabia que não seria com o vencimento da carreira militar que
conseguiria subir na vida, essa verba extra viria mesmo da corrupção.
Depois de sofrer a frustração em
dois concursos seguidos, não desanimou, e a sorte finalmente lhe sorriu no
terceiro. Despediu-se de todos eufórico, prometendo uma visita de médico,
assim que abandonasse de vez o precário transporte público oferecido na cidade.
Bastou um semestre na GNR, para que o
determinado Joaquim aparecesse no antigo trabalho, cumprindo a promessa da
agora transitar sem a companhia de motorista.
Esperava em breve deixar a Cidade
das Arroteias para trás, conseguira um financiamento para ocupar um apartamento
daqueles construído para a corporação, ali na José Neto, no Saldanha.
Para os mais chegados, mostrou até
fotos com a louraça que tem circulado na noite da zona Oeste, e que mais à
frente pretende casar e ter filhos.
Interessante esse comportamento indiferente
que naturaliza a corrupção, fazendo em muito lembrar a trajectória de boa parte
de nossos políticos. Para essa parcela da população ninguém duvida de que: “o
crime feito dessa maneira compensa”.
Muito bom!
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