quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

    

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O crime compensa ?

Joaquim Malapata, 23 anos, louro, do tipo magricelas, ensino fundamental terminado aos trambulhões, nascido e criado no conjunto habitacional das Arroteias , zona Oeste, aglomerado habitacional que convive com clima similar ao do "deserto", marcando sempre a temperatura máxima da zona no verão e muitas vezes convivendo com a mínima do inverno.

Num bairro que se desenvolveu a partir da Fábrica de Telhas Criolé e sua prodigiosa produção rural, onde mais tarde foi escolhida para receber boa parte da população removida dos bairros da lata de diversas zonas e de outros trópicos .

Nos periódicos da cidade, o Oeste Sport Clube frequentou com destaque as páginas de desporto, a partir de equipas que conseguiram ser campeões da segunda divisão de futebol.

A região também se popularizou como berço do lendário Serafim Menezes, vendedor de rifas estiloso, que além de apreciar bons repastos  nutria devoção especial pelo clube local, onde foi a logo alçado ao patamar de patrono do clube.

Joaquim assistia passivamente esse cenário onde o destino dos seus colegas, que como ele com pouca propensão aos estudos, tinha consciência que seu destino logo a frente se resumiria a duas possibilidades de crescimento profissional, ambas com alto risco, a primeira passar no concurso para a GNR, a outra bem mais fácil, porém com risco significativamente mais alto, filiar-se no exército dos esquemas e acções sociais paralelas.


Pela primeira vez na vida ele finalmente tinha uma meta a ser alcançada, a aprovação no concurso da GNR, influenciado que estava sendo por dois de seus vizinhos.

Com menos de um ano de farda Custódio e Leonardo, podiam ser vistos regularmente circulando bem acompanhado pelas acanhadas ruas do bairro, ora em motocicletas destas com mais de mil cilindradas, ora em reluzentes carrões seminovos. Existe estímulo maior?

Isso enchia de admiração os olhos de Joaquim, sonhava acordado com essa nova realidade para si também, e não escondia de ninguém, inclusive de seus colegas da repartição pública municipal onde trabalhava.

Não tinha a menor vergonha de confessar, sabia que não seria com o vencimento da carreira militar que conseguiria subir na vida, essa verba extra viria mesmo da corrupção.

Depois de sofrer a frustração em dois concursos seguidos, não desanimou, e a sorte finalmente lhe sorriu no terceiro. Despediu-se de todos eufórico, prometendo uma visita de médico, assim que abandonasse de vez o precário transporte público oferecido na cidade.

Bastou um semestre na GNR, para que o determinado Joaquim aparecesse no antigo trabalho, cumprindo a promessa da agora transitar sem a companhia de motorista.

Esperava em breve deixar a Cidade das Arroteias para trás, conseguira um financiamento para ocupar um apartamento daqueles construído para a corporação, ali na José Neto, no Saldanha.

Para os mais chegados, mostrou até fotos com a louraça que tem circulado na noite da zona Oeste, e que mais à frente pretende casar e ter filhos.

Interessante esse comportamento indiferente que naturaliza a corrupção, fazendo em muito lembrar a trajectória de boa parte de nossos políticos. Para essa parcela da população ninguém duvida de que: “o crime feito dessa maneira compensa”.


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