quinta-feira, 9 de abril de 2026

 

( aqui no blogue ... ocasionalmente )


O ÚLTIMO ENSAIO


O silêncio no teatro era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico dos sapatos de Armando Contreiras contra a madeira do palco. Ele repassava as falas em voz baixa, gesticulando para as poltronas vazias. Era o papel de sua vida: um detective à beira da loucura, tentando provar que o mundo ao seu redor era uma farsa.

— "Vocês não passam de sombras!" — gritou ele, a voz embargada pela emoção técnica. — "Eu sei que há algo além destas paredes. Eu sinto o olhar de mil olhos que não vejo!"

Ele parou, ofegante. O suor escorria-lhe pelo rosto sob a luz forte do reflector central. Era a performance perfeita. Ele esperava que o director, escondido em algum lugar da penumbra da plateia, finalmente dissesse algo.

— Como fui, director ? — perguntou Amando Contreiras, protegendo os olhos da luz com a mão.


O silêncio perdurou por cinco segundos. Então, um clique metálico ecoou por todo o recinto.

De repente, o tecto do teatro se abriu como uma tampa de metal gigante, revelando não o céu nocturno, mas o rosto colossal de uma criança curiosa. Uma mão imensa desceu das nuvens, segurando um frasco de tinta.

Ficou óptimo, Armando — disse uma voz trovejante que fez o chão vibrar. — Mas agora chega de drama. Vamos guardar a caixa de brinquedos, o jantar está pronto.

Armando tentou correr, mas seus pés, subitamente rígidos, estavam colados à base de plástico verde. Ele olhou para as próprias mãos e viu, pela primeira vez, a linha de costura que dividia seu pulso de polímero.

A luz do sol real entrou, e o mundo de Armando Contreiras foi fechado em uma caixa de papelão escura.

2 comentários: